No ano passado a Record publicou o que o próprio autor, Geneton Moraes Neto, chamou de “uma bomba”, Nitroglicerina Pura, livro que traz a público as confidências do embaixador inglês no Brasil ao tempo do Estado Novo. É uma publicação em parceria com Joel Silveira.
Eram relatórios secretos enviados pela embaixada inglesa ao Foreign Office dando a “ficha” das personalidades brasileiras daquele tempo, a começar pela de Getúlio Vargas, “a raposa política mais astuta do hemisfério ocidental”, no dizer do embaixador Gurney. Esses dossiês, verdadeiras montanhas de papéis, eram arquivados a sete chaves numa repartição a isso destinada, o Public Record Office, para serem liberados cinquenta anos depois.
Foi aí que entrou Geneton Moraes Neto, vasculhando os segredos, de inglês para inglês, sobre o Brasil e os seus homens. Sobre o Brasil, o retrato não fica muito a dever à realidade de todos os tempos: “Como todos os povos de cultura limitada, sentem premência irreável de fazer uma exibição de sua modernidade. Imitam todos os modismos, sejam materiais, sejam intelectuais, sem levar em conta as condições locais”.
O retrato prossegue, sumariado, num raio-X perfeito, quase dez páginas, abordando desde o modismo político e cultural aos vícios do emprego público. Só a leitura integral dá a ideia perfeita dessa visão estrangeira do nosso país.
Sobre os homens de 30, retratados pelo embaixador aos senhores da corte, salvam-se poucos. Raríssimos. Lourival Fontes é detestável, corcunda, zarolho, interesseiro e impopular. Góes Monteiro, chefe do Estado Maior das Forças Armadas, é um tremendo bebedor. Flores da Cunha, o mais poderoso político do Rio Grande, é “inescrupuloso e jogador inveterado”. Otávio Mangabeira é, literalmente, um mulato de família pobre que enriqueceu através da política. Chateaubriand é personalidade perigosa e intrigante. Herbert Moses, presidente da ABI da época, um homem-zinho parecido com um macaco. Até Rondon sai maculado no perfil montado pelo embaixador Gurney. Aparece como proprietário de enormes extensões de terra no interior, particularmente Goiás e Mato Grosso, “que adquiriu por meios dúbios e desonestos”. Verdade?!
Mesmo o nosso grande Epitácio Pessoa não se sai bem aos olhos maledicentes dos ingleses: “Sempre pronto, em troca de vantagens, a colocar seus grandes conhecimentos jurídicos a serviço das corporações britânicas em dificuldades com as leis brasileiras”.
Péssimo.
De toda a galeria de homens públicos brasileiros, apenas Landulpho Alves, interventor da Bahia, e José Américo de Almeida, ministro, conseguem escapar ilesos da nitroglicerina secreta dos ingleses. O primeiro, qualificado como especialista em questões agrícolas, “é despretensioso, trabalhador, eficiente, e tem feito esforços extraordinários para desenvolver o Estado (…) Desfruta da confiança do presidente, mas, provavelmente, em virtude da honestidade com que se empenha em moralizar a administração”.
José Américo mereceu umas trinta linhas do embaixador irreverente, metade biográficas, metade de juízo sobre o seu comportamento: “Ardoroso revolucionário, no sentido de trabalhar pelas reformas e pela pureza da administração, começou a suspeitar de corrupção por parte das empresas estrangeiras e passou a inclinar-se fortemente para o nacionalismo. Quando o Governo provisório chegava ao fim, suas tendências socialistas e nacionalistas se acentuaram, talvez em parte para fins eleitorais. Deu os primeiros passos para a eliminação da cláusula ouro nos contratos das companhias concessionárias estrangeiras”.
O retrato prossegue. A transcrição entra como homenagem aos 106 anos de nascimento desse paraibano sempre vivo.
