Durval era uma das raras pessoas em que o prazer de vê-lo não era uma formalidade. Dava prazer.
A mim, em qualquer circunstância, era só o que ele inspirava. A bondade humana. A capacidade que tem o bicho homem, fruto adverso e agreste, de converter a vida comum em coisa suportável.
Estávamos “em baixo” até encontrar Durval.
No único retrato que tenho em mãos, ele parece espantado. Olha como se me chamasse para brigar, a braveza do olhar sublinhada por um bigode arruaceiro. Retrato de quem estava partindo para a guerrilha ou de quem acabara de conversar com o “Che” sobre história lendária ou próxima.
Tenho certeza de que não era mais que uma pose fotográfica, uma representação tão comum às nossas fantasias revolucionárias ou de simples machismo “Homem que é homem não faz risinho em fotografia”.
A foto é de uma antologia do conto paraibano, editada por Antônio Barreto Neto, n’A União de 1976. Durval aparece com o “Carrossel Azul”, um conto que é o filão da sua sensibilidade. Um filão partido que ele sempre pretendeu retomar. É possível que tenha deixado em casa alguma coisa pronta ou alinhavada. Escrevia sem fazer disso o seu principal ofício, que era o da solidariedade, o de valorizar talentos e vocações que ele dava tudo para que vingassem.
E escrevia bem:
“Lá fora, na rua, o vento morno da tarde fazia subir uma corrente de poeira que percorria o chão e fazia redemoinhos na beira da calçada. O sol já não se via, apenas barras vermelho-bronze sangravam o dia que agonizava nos confins da terra. A velha gameleira espargia seus longos braços querendo cobrir o mundo. Sombras indecisas que pareciam velhos fantasmas, famintos e sem vida”.
O que ele descreve é uma espécie de delírio final da velha Felinta, personagem maior do conto. E era exatamente o que acontecia neste domingo à tarde, quando o levamos de volta às sombras de Cruz das Armas, bairro de sua infância, que ele fazia questão de chamar operário.
Na tarde real o sol se esforçava para não fugir à descrição que ele lhe dera: “… apenas barras vermelho-bronze sangravam o dia que agonizava nos confins da terra”.
Distanciei-me aos poucos do grupo que o assediava, todos de olhos baixos, em torno da sepultura. Esforcei-me para dissociar a reunião daquelas pessoas da imagem que a sua vida me legara. “Não é nada com ele”. Fui me distanciando, abstraindo-me das cruzes e das vozes soturnas, até voltar a vê-lo como ele sempre foi: dando prazer, tornando agradáveis os momentos mais comuns.
Ele está com a mão no meu ombro e sai comigo. Sai rindo aquele riso do rosto, dos olhos, do corpo e da alma, que só se apaga quando morrer o seu último amigo.
