Viajei com medo. Não que a estrada fosse estranha ou que o avião fosse um DC-4 via Fernando de Noronha. Mas por uma certa cisma (para não dizer superstição) que adquiri ao longo de quarenta anos de idas e vindas pela estrada inacabada de João Pessoa a Campina.
A estrada não tem nada de mal-assombrada. É prado até Sapé, um encanto agreste do quilômetro 79 até o pé da serra, a sensação de liberdade física que as alturas do Riachão oferecem. É estrada que me desoprime, me dá altura em relação a certos muros do espaço e também do tempo. Lá em cima, os seus ventos parecem-me do tempo, não ventos de ir, mas de regressar, de me levar a ruas e estações verdes por onde há longos anos caminhei. Sempre subo a serra com uma volta, um retorno retemperante, uma possibilidade viva e moral de começar de novo.
Vê-se portanto, que não é só uma estrada a Campina e sim a mim mesmo por espaço igual e tempos diferentes.
Mas cismei que um dia haveria de me dar mal nessa via tão íntima, diria que mais ao interior de mim que da Paraíba. E é que, em quarenta e dois anos de tráfego, nunca a vi pronta e completamente acabada. Desde José Américo que ela vive em obras, três anos daqui ao Cajá, quarenta anos do Cajá ao Açude Velho.
O primeiro trecho, de Santa Rita ao Chaves, foi obra de holandês. Daí em diante juntaram-se o terreno acidentado e os maus empreiteiros para fazerem de setenta e poucos quilômetros a estrada mais longa e demorada do mundo. A Transiberiana cortou a Rússia eurasiana num único governo. A estrada de Campina passou por onze governos federais, onze estaduais, consumiu quatro décadas, demorou do rádio rabo-quente ao Intelsat.
Está uma beleza. Lisa, limpa, pintadinha, uma tentação para os fins de semana da Capital do Trabalho na Capital Oficial, do turismo espumante, cujas taças efusivas alguns novos-ricos querem bater com os futuros espigões da orla.
Mas onde ficou a minha cisma?
De tanto demorar, de tão inacabada, botei na cabeça que no dia em que não houvesse desvio, nem remendo, nem interrupção na pista… No dia em que ela chegasse inteirinha, de uma ponta a outra, até a estátua dos três Gaudêncios, a partir desse dia eu passaria a viajar com cuidado…
E pensei comigo: “Muita gente se foi sem ver essa estrada… Meu irmão em sensibilidade, poeta e amigo Jurandy Moura, verteu sangue nesta pista sem nunca vê-la chegar. Ele também não chegou ao fim da estrada que os seus dons mereciam. Ali onde cruza o Aeroporto vejo-o em estátua sem que ninguém até agora a houvesse erigido”.
Na viagem recente, Neiva ao volante, ele que nunca fez barbeiragem, comecei a pensar sozinho: “É hoje. Esta estrada nunca foi assim, nunca terminou. É hoje”. E botei o cinto de segurança, e segurei-me, e fiz três pelo-sinais no apertar-da-hora do Riachão, agora com um cinturão de traves e de trilhos.
