Eu não conhecia o Curimataú, a não ser pelas descrições literárias de José Américo, pela gagueira do meu primo Augustinho Avelino, filho do velho Noberto. E pelo testemunho bem humorado de Otávio Henrique, antigo companheiro da Casa do Estudante, egresso de Picuí.
A pretexto de ver alguns serviços de açudagem feitos pelo governo naquela região, constatei, com os meus olhos, o que o impressionismo de José Américo me fizera ver e sentir:
“Os animais que se salvaram comendo espinhos pareciam esqueletos vivos”. Esse, sim, era o reino mineral. Pedras de todos os formatos como esculturas nativas, um mundo de pedras, rochas que se descascavam como cobras. As estradas eram calçadas pela variedade de cores dos seixos rolados. “O rebanho alimentava-se de cactos queimados, como se comessem brasa e fuçassem o leito seco do rio para beber”.
Passados noventa anos da visão americista, colhida na infância, mudou a estrada, que é hoje de asfalto, mas a paisagem é a mesma: pedra, seixos e o espectro solar encostando na terra.
Aqui serão os homens de outra espécie e de diferente natureza. Onde, de que gruta ou fonte tiram a água e o alimento?
No café da manhã, em Barra de Santa Rosa, servem-nos queijo assado, carne de sol e ovo de capoeira. Café gordo, farto, produzido de ninhos e currais que me pareciam impossíveis naquela solidão descampada.
“De que vivem vocês?” – perguntei em Pedra Lavrada, descida a Serra de Cuité, atravessada as trempes de sol de Picuí, de onde a cidade desponta numa luminosidade de nos levar a mão a proteger os olhos.
É o velho Egídio quem responde: “Aqui nos deixaram sozinhos: sem água, sem árvore, a vida na pedra”.
E depois de uma pausa, depois de uma longa e silenciosa meditação: “A vida arrancada a unha”.
É como eles cavam o minério socado na pedra ou uma aluvião, principal meio de vida da região.
Mas o que escasseia na terra aflora bonito e simpático no rosto de uma gente risonha de cabelos de sol: o viço de alguma coisa, da alma, do instinto natural, da vida humana, enfim.
Lá fora o homem me mostra a Serra do Alagamar, pimpinada de pequenas lavras, onde estão socados, de tempos imemoriais, os ancestrais que ressoavam das conversas do velho Manuel Avelino, filho do corcovo que ele chamava Lagamar. Sobrevivente dessas locas, só podia ser desmedida a fúria com que entrou, de enxada em punho, nas fofas terras do brejo. Era um celerado no eito, no destocamento, no plantio, deixando para trás todos os seus parceiros. Não se gabava disso, mas da terra que adotara no brejo, ligada ou fofa.
Freio o carro e, antes de entrar na estrada de volta, dou uma última olhada. Tudo me parece em estado primitivo, a rocha, a planície tostada, a serra incandescente, tudo à espera do primeiro sopro vegetal. Ali Deus deixou a água e as coisas de folha para um dia que ainda não chegou.