terça-feira, 21 de julho de 2026
Trump tem medo da China
14/04/2025

Com seus avanços e recuos, o “tarifaço” de Donald Trump tem dominado o noticiário internacional. Analistas, mídias e o público em geral parecem tomados de certa surpresa com a guerra comercial deflagrada pelo atual titular da Casa Branca, tendo a China como alvo-preferencial. Mas essa surpresa não é plenamente justificada.

Ao longo de sua campanha, o acrônimo MAGA, Make America Great Again, foi um dos pilares do trumpismo. Recuperando discursos e práticas de seu primeiro mandato (2017-2021), Trump sinalizou claramente que recuperar a indústria e o emprego dos (verdadeiros) americanos seria prioritário. Neste sentido, o recente “tarifaço” é diretamente proporcional à nova musculatura política do novo presidente, que, além de dominar o Congresso e a Suprema Corte, também detém a máquina do partido Republicano e boa parte da pauta midiática.

Mas há um outro elemento que contradiz a aura de surpresa que reveste o tarifaço: a história. Sim, quando olhamos retrospectivamente, vemos que o crescimento econômico dos países desenvolvidos contradiz o discurso liberal com o qual impuseram seu poder aos demais. Desde a I Revolução Industrial Inglesa, no século XVIII, passando pela Revolução Meiji (1868-1912), no Japão, nenhum país desenvolveu sua indústria sem recorrer fortemente ao protecionismo.

Os Estados Unidos, entre os séculos XIX e XX, foram os países líderes do protecionismo global. Assim, ao contrário do que muitos imaginam, a Guerra Civil Americana (1861-1865) não foi motivada pelo nobre ideal de libertar os negros escravizados, mas, verdadeiramente, para proteger as então incipientes indústrias do Centro-Norte do país. Diferente do que habita o imaginário popular, cuidadosamente moldado pelos arautos do liberalismo, as antigas colônias de povoamento eram altamente protecionistas, contrastando com as políticas liberais do Sul. Eram os sulistas que, assentados sobre o modelo agrário-exportador, queriam plena liberdade para vender suas “commodities” e comprar os bens manufaturados produzidos na Europa.

Agora, quando se vê novamente inferiorizada pela competição internacional, desta vez com os asiáticos, a América resgata o “bom e velho” protecionismo, que tanto combateu nas últimas décadas. Dentre outras, o “tarifaço” comprova a tese de que o livre-comércio é um poderoso discurso ideológico à serviço das grandes potências ocidentais, que vem sendo utilizado como uma política de “pé na porta” contra países que, como o Brasil, buscaram se industrializar. De fato, entre os anos 1990 e 2000, diferentes governos abraçaram ingenuamente a bandeira do neoliberalismo, contribuindo decisivamente para a desindustrialização brasileira.

Mas há um terceiro elemento necessário para compreender o “tarifaço” trumpista: o medo. A América tem medo da China, o novo “lobo mau” do Ocidente. A guerra comercial deflagrada por Trump revela o medo da China, permitindo antever que, potencialmente, a China tem mais poder. A China tem uma população organizada e educada, política interna estável, crescimento pujante e desenvolvimento científico e tecnológico autônomo, capaz de sustentar tanto a produção de bens, produtos e serviços, quanto o setor bélico-militar.

Avessa ao imperialismo típico do Ocidente, as relações comerciais entre a China e seus parceiros estão baseadas nos princípios da reciprocidade e da fidelização das parcerias, sem perder de vista que o comércio internacional se constrói pragmaticamente sobre cifras. Diferente das potências ocidentais, o interesse Chinês não é a hegemonia. A China não quer impor sua moeda como lastro mundial, não quer ser a única voz nas instituições de governança global. Em sua estratégia perene de desenvolvimento e nova inserção internacional, Pequim deseja comercializar seus produtos, conquistar novos mercados e, para isso, usa toda sua força de trabalho, tecnologia e inovação para obter menor preço e maior “clientela”.

O “tarifaço” mostra que Trump age como uma criança malcriada que, contrariada, deseja quebrar o brinquedo do amigo que tem aquilo que ele não tem, que pode fazer o que ele não pode, que pode ir onde ele não vai. Todavia, isolado no “parquinho” das relações internacionais e percebendo que seria o maior prejudicado por sua malcriação, logo após seu ato intempestivo o menino rico de topete dourado recuou, sorrindo amareladamente para as demais “crianças”. Só a China não foi “perdoada”. Na distopia trumpista, estes devem permanecer de castigo porque ousaram crescer e brigar de igual para igual com a criança birrenta que fantasia ser imperador.

À exceção dos especuladores, ninguém vence uma guerra comercial. Em resposta a Trump, a China elevou para 125% as tarifas sobre produtos norte-americanos, deixando claro que não vai se curvar a qualquer tentativa de intimidação. Ademais, cientes de seu poderio, os chineses já disseram que não vão aumentar ainda mais as tarifas sobre produtos americanos, ainda que Trump continue sua insana escalada tarifária. Pequim sabe que, nos patamares atuais, o comércio recíproco já está muito comprometido, atingindo duramente as empresas americanas que produzem na China e exportam para seu país de origem.

O mundo vive um momento curioso. Hoje, parece que os comunistas são os únicos que podem salvar o capitalismo. Brincadeiras à parte, é certo que o medo é um péssimo conselheiro. Com seu “tarifaço”, Trump ensaia jogar o mundo em uma espiral recessiva, cujas consequência são imprevisíveis. Antes que o caos absorva toda a luz, uma nova ordem é necessária.

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