terça-feira, 21 de julho de 2026
Trump: contra tudo e contra todos
14/10/2025

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Desde janeiro de 2025, quando iniciou seu segundo mandato, Donald Trump adotou uma política de “guerra” contra o mundo. Não há que se falar, ainda, de guerra no sentido bélico. Afinal, salvo os bombardeios ao Irã e o posicionamento de tropas na costa da Venezuela, o “agente laranja” ainda não movimentou a imensa máquina de guerra americana.

​​Todavia, as hostilidades sistemáticas contra diferentes países mostram que sua feição marcial é inescapável. Em menos de um ano, o titular da Casa Branca já sugeriu a anexação do Canadá, bradou pela aquisição da Groenlândia e retomou o controle sobre o Canal do Panamá, renovando as piores práticas coloniais norte-americanas. Dentre outas ações acintosas, também podemos mencionar sua política migratória e o deslocamento da Guarda Nacional para Chicago e Illinois (sim, uma agressão interna), sob a falsa acusação de que seus governantes não protegem adequadamente as autoridades migratórias federais. 

​​Mas é inegável que a belicosidade de Trump tem no comércio sua expressão mais visível. Em poucos meses, o americano já sobretaxou seus vizinhos na América do Norte e acossou a União Europeia para rever o comércio recíproco. O “velho mundo”, que ruge forte contra a Rússia, mia baixinho aos pés de Trump. Além disso, o presidente americano vem distribuindo “tarifaços” como a mesma sutileza com a qual Chacrinha, o velho palhaço da TV brasileira, distribuía bacalhau em seus programas dominicais. Da Índia à Costa do Marfim, do Japão a Nauru, não há quem escape à sanha trumpista.

​​O Brasil também tem sido alvo das hostilidades de Trump. Após sobretaxar as exportações brasileiras e aplicar a famigerada Lei Magnitsky contra ministros do STF, Trump abriu uma promissora janela de negociações. Após um breve encontro por ocasião da 80ª reunião anual das Nações Unidas, o americano teve uma proveitosa conversa telefônica com Lula, deixando o caminho livre para novos diálogos, quer diretamente entre os dois líderes, quer pela diplomacia de alto-nível, isto é, entre o secretário de Estado, Marco Rubio, e o chanceler brasileiro, Mauro Vieira.

​​Neste contexto, poucos temas têm despertado tanto frisson na mídia quanto as negociações comerciais Brasil-EUA. Embora a economia brasileira tenha se mostrado resiliente, mantendo ótimos números mesmo na vigência das sobretaxas de Donald (estamos falando de Trump, não do pato-rouco da Disney), sem contar as ações da “quinta coluna” bolsonarista, que trabalha diuturnamente contra os interesses nacionais, não há dúvida de que o diálogo é sempre o melhor caminho. Afinal, para além do comércio, as relações com os EUA possuem múltiplas nuances, com desdobramentos socioculturais e políticos evidentes.

​​Mas o Brasil está longe de ser um problema de grande monta para o “homem do topete laranja”. Há alguns dias, depois de alguma calmaria, Trump voltou suas baterias contra a China. Em função da limitação da venda de terras raras (sempre elas) pela China, Trump sobretaxou as exportações chinesas em 100%, percentual que se soma aos exorbitantes 30% já em vigor. A China é mais do que uma pedra no sapatinho de cristal de Trump. O dragão chinês é o principal rival geopolítico da América, caminhando a passos largos para destronar os EUA do primeiro lugar no pódio das superpotências globais. E sabem qual a pior notícia para os americanos? Essa é uma disputa que eles já perderam.

​​De fato, além de pontificarem em áreas estratégicas como patentes e propriedade intelectual, dominando setores sensíveis como robótica e inteligência artificial (IA), os chineses avançam sobre a agenda financeira, econômica e comercial. Em reação ao Liberation Day e às hostilidades sempre renovadas de Washington contra o mundo, a China se apresenta como o principal esteio do multilateralismo e da governança global. Na verdade, hoje poucos duvidam de que, em grande parte, os tarifaços de Trump são tiros que saem pela culatra. Em várias regiões do mundo – inclusive no âmbito dos BRICS – novas articulações comerciais driblam as barreiras impostas por Trump, desafiando os interesses econômicos e geopolíticos dos EUA. Nesse rearranjo global, o Sul Global ganha destaque, com a China assumindo o papel de principal motor.

Mas não é de hoje que os EUA estão em declínio. Como destacou a revista britânica The Economist, em sua edição de 9 de setembro, o enfraquecimento do poder americano antecede ao “laranjão”. Em verdade, desde o início do século XXI a participação da América no comércio global encolheu de um 1/5 para 1/8 das transações totais, uma queda de 37,5%. O isolacionismo e a arrogância diplomática do novo presidente apenas aceleram essa perda de protagonismo, impulsionando aliados históricos a buscarem novas articulações e parceiros. Um exemplo emblemático ocorreu em 18 de setembro, quando a presidente do México e o primeiro-ministro do Canadá se reuniram para tratar da integração das cadeias produtivas dos dois países, bem como de investimentos comuns em infraestrutura e IA – sem sequer convidar os EUA. Trata-se de um gesto simbólico, pois a América hoje ignorada outrora forjou o NAFTA e aspirou construir uma imensa área de livre comércio nas Américas, do Alasca à Terra do Fogo. 

Ainda mais eloquente foi o encontro entre os presidentes da China, Xi Jinping, e da Índia, Narendra Modi, em 31 de agosto. Ambos declararam ter “mais consensos do que divergências” e lançaram uma nova agenda de cooperação. Este seria um movimento impensável há alguns anos, quando suas tropas se estranhavam na Caxemira, na borda ocidental do Himalaia. Ironia das ironias: ao impor tarifas de 50% sobre produtos indianos, Trump acabou aproximando Nova Délhi de Pequim – um “presente” involuntário que simboliza como as próprias ações norte-americanas contribuem para a redução de sua relevância global. A reaproximação entre as duas maiores potências asiáticas – presentes na coalizão BRICS – evidencia não apenas a erosão do poder norte-americano, mas também o surgimento de uma ordem na qual Washington já não dita as regras. Portanto, é certo que na guerra movida por Trump contra tudo e contra todos, até aqui as maiores vítimas são os EUA.

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