As chuvas e as cheias do Rio Paraíba foram descritas por José Lins do Rego com emoção. As águas que arrastavam tudo, também estimulavam magote de homens para jogar na terra os grãos de esperança, no plantio e na colheita.
As águas ternas de março fizeram transbordar açudes e temporariamente perenizar rios, umedecendo a terra onde são colocados os grãos para saciar a fome como descritas por José Lins. Esperadas com ansiedade durante seis anos, as chuvas partiram do Sertão, passaram pelo Cariri criando expectativas de safra agrícola até chegar ao Brejo e Litoral, com ventos turbinados, com dias e noites friorentas, substituindo o efeito entristecedor da seca de outrora. Foi quando o agricultor esperançoso abriu largos sorrisos.
Uma ponta-d’água do Rio Taperoá chamou-me a atenção. Esborratava, com as lâminas de água cobrindo as ribanceiras de lado a lado, espetáculo inesquecível, mas são os riachos e córregos que impressionam porque correm lentos, pedindo espaços para penetrar na terra, esperando que os grãos sejam ali depositados.
Se no Brejo as serras e enseadas ficaram com a paisagem que parece um tapete verde, retornei do Cariri e do Sertão com a certeza de que a Paraíba neste ano terá milho e feijão na panela. Em quantidade as plantações não têm as proporções de tempos atrás, pois se constata a escassez de braços para trabalhar a terra, porque muitos fugiram para as pontas das ruas, satisfeitos com o que recebem do governo, migalhas que humilham, escravizam e não libertam.
As serras desnudas ganharam roupagem nova. Tudo refeito pelas encostas e planícies. Entretanto, continuará a panela vazia na trempe de quem se negou a botar na terra os grãos da esperança. As chuvas têm sido generosas, e quem plantar, vai colher fartura.
Na festa das águas, ainda na espera pela germinação dos grãos e da colheita, silencioso e de olhos arregalados, durante a viagem enquanto cruzava riachos e alagadiços verdejantes, observei entre Prata e Sumé, homens cultivando a terra. Acompanhou-me o cheiro da terra cavada onde brotam as raízes da vegetação adormecida.
Uma música que se perde ao largo sai da água límpida que escorrega sobre os seixos em um rego. Deu-me vontade de não sair dali. Mas precisava ir até ao agricultor solitário que escavava a terra, porque nem os filhos querem pegar no cabo da enxada, para aparta-lhe as mãos pela persistência.
Neste tempo os lajedos não faíscam ao sol, mas o vento sacode a empanada de marmeleiro, imburana, jurema, macambira, xique-xique que parece tapete nos despenhadeiros em seu entorno, de onde as juritis voam rasantes.
– O tempo está bonito para chover!
– Têm sido venturosos os dias, quando as nuvens aparecem no quebrar da barra, logo chega chuva.
