João Pessoa, quarta-feira, 26 de agosto de 2026
O poeta Dom Helder    
25/08/2026

Padre por vocação, poeta por necessidade para melhor se comunicar com o Cosmos, Dom Helder Câmara escreveu poemas que exaltam o pensamento cristão e, de modo todo especial, revelam as magnificências espirituais de Nossa Senhora, a quem chamou de rosa mística, digna de todos os louvores celestiais e humanos.

Ordenado padre no dia 15 de agosto de 1931, o jovem padre Helder Câmara, cinco depois seguiu depois servindo à Igreja no Rio de Janeiro, para logo em seguida ser nomeado bispo-auxiliar.

Nessa época deixou aflorar ainda mais sua tendência para a poesia, mesmo sendo uma produção esporádica. 

No Rio de Janeiro, não demorou galgar o cume dos diversos espaços culturais e do pensamento católico da sociedade carioca.

Amparado pela vontade de servir à Igreja, alicerçado na farta cultura clássica greco-romana e abrangente visão ao social, tornou-se admirado pelo mundo intelectual da Capital Federal.

Com posições firmes em favor dos excluídos das periferias e necessitados residentes nos morros favelados, quando passou a residir em Recife, suscitou avanços no sentido de obter conquistas em favor do pobre, do marginalizado, das famílias ribeirinhas e das parafitas. 

Com sua voz profética, apontava caminhos para superar os males que atormentavam grande camada da sociedade. Sua imagem de pastor católico, carregando no peito a cruz de madeira e cajado na mão, se espalhava uma nova visão evangélica.

O Papa João XXIII estava ansioso para conhecer o bispo brasileiro que revolucionava a Igreja no Brasil. No primeiro encontro, o papa, abrindo a porta do salão do Vaticano, espontaneamente soltou a expressão que o jornalista Pedro Bloch transcreveu na Revista Manchete de 27 de julho de 1963:

– Oh!… Tinham-me dito que eu ia conhecer um grande arcebispo, e estou vendo um pequenino!

Dom Helder se deslumbrou diante da frase bem-humorada do Santo Pontífice, tão sábia e tão generosa, dando o recado da nação brasileira ao Santo Pontífice.

Conheci este epíscopo de sorriso franco pessoalmente no ano de 1992, quando ele esteve em Guarabira para entregar a condecoração a Dom Marcelo Carvalheira, Personalidade do Ano do Grande Júri da Organização Francesa Distinction Internationale. Fiquei perto dele para averiguar que tínhamos estatura física se igualava. 

Com 1,55 m, ele se agigantava para cobrir a todos com a luz da esperança, com palavras saídas do coração.

Em seus poemas, este bispo trouxe para meditação palavras de elevado conteúdo místico e fraternal.

Mesmo que a sua produção de poemas tenha sido esporádica, em determinado momento, principalmente na fase inicial de jovem padre, percebe-se uma influência da poesia de Manoel Bandeira, Tagore, Rumi. 

Usando o pseudônimo “Padre José”, escreveu muitas meditações e poemas, como este dedicado à sua mãe, dona Adelaide: 

“Ver passar o ferro/a roupa lavada/foi sempre/um espetáculo para a minha infância. /Que mistério havia/ nas mãos de minha mãe/ no ferro ou dentro dele/ capaz de estirar as peças/e de imprimir às roupas/ a distinção discreta/que é a fidalguia dos humildes?”

A produção literária de Dom Helder, basicamente composta de textos abordando mensagens da religião, na maioria aponta caminhos que levaram a uma reflexão acerca da vida, da paz e da libertação do cativeiro, é uma leitura agradável. Traz muitos ensinamentos.

Crescemos com suas meditações e com a leitura dos poemas deste profeta porque sempre são carregados de ensinamentos e espiritualidade. Ele costumava dizer que Deus é a essência da Poesia, porque Deus tudo criou. A Natureza é Poesia, o Mar, todos os rios e lagoas são Poesia, a Lua é Poesia. Tudo é a grandeza de Deus.

Além de meditações na linha dos grandes Padres da Igreja, em 1996 ele publicou “Rosa para o meu Deus”, composto de poemetos de cunho místico, em louvação a Nossa Senhora. Destacamos outro poema de beleza singular, “Pés Estropiados”, quando dirigiu louvação à Virgem Maria.

Mesmo sem constar em compêndios literários, a Poesia de Dom Helder Câmara é singular. Seu estilo é simples, interpelador.  

Ele era cônscio da necessidade da Poesia na caminhada da Igreja, na vida das pessoas, por isso tentou despertar a mística nas criaturas que buscam as revelações íntimas para se tornar uteis no processo de salvação. 

Poesia tocante, profundamente carregada de sabedoria: “É grave ser frio/quando se tem coração/e dentro dele, tantas vezes, /o fogo de Deus… ”.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).