João Pessoa, domingo, 16 de agosto de 2026
Dá vontade de chorar
15/08/2026

Estamos vendo desmoronar o mundo onde nasceu Augusto dos Anjos, assim como desmoronaram os engenhos da família, com o fim da mão de obra escrava.

Os caminhos do poeta estão esburacados.

Aqui, no antigo Engenho Pau d’Arco, nesta tarde, sob o fósforo alvo do sol, temos a visão da paisagem desolada onde o poeta deixou-se embriagar pelo ar puro da poesia que as crianças recolhem. Vendo a ruína coletiva do seu mundo, girando meu olhar para o tamarindo e todo seu entorno, com o rio Una, a casa grande, a capela e o lago pedindo socorro, aumenta a desolação alimentada pelo semiabandono.

Olhando para a árvore dos sonhos, os galhos pendurados na lembrança que os poemas conservam, tudo me remeteu ao jovem que manuseava as páginas do EU como uma viagem cósmica; em certos momentos, como um relâmpago, desciam comigo para se prostrar debaixo da sombra da árvore centenária, que teima em ficar de pé.

Estar debaixo deste tamarindo adormecido, com galhos retorcidos pelo tempo, mas que guardam a neblina das madrugadas, em cujas entranhas retêm o grito desesperado, porque gerado pela agonia alimentada pelo desprezo público para com um patrimônio mítico, cósmico e histórico. Um pedaço da Paraíba é varrido do mapa cultural, lentamente. Patrimônio que deveria ser cuidado com carinho e a atenção merecida, porque em cada galho dessa árvore carrega a poesia de Augusto dos Anjos.

O mata-pasto e a gramínea infestaram os caminhos até a árvore da poesia, a casa da ama e leite, com regos e ondulações que dificultam o acesso e enfeiam a paisagem em todo seu entorno. Toda a “flora moça” do tempo do poeta soluça, agoniza.

Os de antes ainda puderam contemplar a paisagem do poeta, ter os pés lambuzados pela terra e ver as marcas das mãos dele no tronco do tamarindo. Mas agora, vendo tudo aquilo, dá vontade de chorar…

 O Engenho Pau d’arco era uma câmara nupcial:

Os ventos vagamundos batem, bolem

Nas árvores. O ar cheira. A terra cheira…

E a alma dos vegetais rebenta inteira

De todos os crepúsculos do pólen. (Poema Gemidos de Arte) 

Do mesmo poema:

Nos tempos e nas outras eras,

quantas flores! Agora, em vez de flores,

Os musgos, como exóticos pintores,

pintam caretas verdes nas taperas.

Parece que o esforço de manter viva a memória do poeta naquele lugar se esfacelou; mesmo que em outros lugares solitários apaixonados pela sua poesia tentem manter viva a memória desse que ganhou imortalidade em outros lugares.

Como entristece caminhar por entre as paredes da casa onde Augusto nasceu; ver que a capela onde o poeta foi batizado está com as paredes descascadas.

Apesar do sol que se esparramava naquele dia e da lua que o aclare, “este Engenho Pau d’Arco é muito triste”. Pode não ser o lugar triste, mas a situação entristece.

Tudo ali é monotonia; dessas monotonias que distanciam as pessoas e assombram. O lugar que outrora cheirava poesia, já não tem a natureza que institui “a luz do cérebro que pensa”. O tamarindo ainda não morreu; agoniza. Ainda há simbiose entre a natureza e o homem, o poeta e árvore, com a poesia renovando os sonhos que a alma carrega.

O ronco das noites continua escondido, sem que ninguém consiga agarrar, esperando a neblina do alvorecer, até que comece um novo tempo.

Retornando, naquela tarde, do velho Engenho Pau d’Arco, fui buscar respostas na poesia de Augusto; mesmo que a resposta esteja adormecida nas gavetas da burocracia.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).