Uma comenda para minha poesia
08/08/2026

Duas cidades andam comigo como paisagens de minhas recordações mais constantes. Em Serraria construíram-se meus sonhos de primavera, e Arara foi o lugar onde recolhi as mais belas lembranças dos anos dourados da juventude. 

Sempre retornei para estes lugares, às vezes, no galope da imaginação, que é uma forma de voltar mesmo estando distante, para caminhar pelas suas ruas, observando os canaviais e as palmeiras de Serraria acenando de longe, ou estar perto da vegetação esturricada de Arara composta de pedregulho. Eu carrego duas cidades no meu coração. 

Sempre estou retornando à Arara. Todos os dias eu retorno à Arara nas minhas lembranças porque carrego sua paisagem humana no meu coração. No meu coração guardo aquele lugar. Naquela cidade cheguei ao florescer de minha juventude, mas sua gente já estava no meu coração. Serraria me entregou aos cuidados de Arara, e seu povo me recolheu no abraço e no olhar de ternura.

A intermitência do sonho permite suportar a ausência, e as lembranças consolam-me quando ganham vida no meu poema, na minha crônica.

Em décadas de vida dedicada à imprensa, Arara e Serraria alimentam-me como musas a inspirar e a cobrar sempre mais uma canção apaixonada. Como me esforço para corresponder a esse chamado! Em todo esse tempo não me canso de falar desta terra, e retiro as sandálias dos pés para pisar no seu chão sagrado que Padre Ibiapina pisou.

Quando seu povo outorgou a alta Comenda Padre Ibiapina, ainda mais tenho que retribuir esse reconhecimento. Se amava com o coração de apaixonado esta cidade, agora será em dobro esse amor. Aliás, sempre me considerei um filho adotivo deste lugar. Toda a minha declaração de amor está nos meus escritos. Uma prova de amor por aquela terra onde fui buscar a mãe de meus filhos e a avó de meus netos.

Para saudar a terra de Nathanael Alves e onde Padre Ibiapina viveu e está sepultado, repito os versos do poeta chileno Pablo Neruda: “Minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta”. 

Lembro tudo isso ao recordar o rosto de cada conterrâneo que estava na Câmara de Vereadores de Arara, que me fez merecedor da Comenda Padre Ibiapina, num gesto que tento justificar como merecedor. 

Enquanto eu, recolhido em lucubrações, tenho apenas minha poesia como alimento para oferecer ao povo carente do saber e do conhecer da abrangência da magia da arte.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).