Revendo antigas fotos do Sertão, percebi que o quadro continua o mesmo, comparando-se com o que se presenciava em tempos recentes. O panorama das fotos era de paisagem esturricada, sem pasto para alimentar os animais, e até as vertentes de água sumiram.
Na mesma época retratada pelas fotografias, viajei pelo Brejo, encontrando lugares perdendo o verde. Encontrei riachos com filete de água sem a abundância de outrora.
Décadas atrás, o Brejo ainda esbanjava paisagem com poções de verde canaviais e brisa noturna acariciadora, com o aroma morno enquanto se embalava as crianças nas redes. Esses meninos que crescem numa resistência renovada a cada lufada de vento que despenca das serras em debando dos baixios.
A seca não apavora o sertanejo do Norte, mesmo que recolha prognósticos e augúrios de presença da chuva que retarda. Na beira dos riachos o caboclo arregaça a terra, enquanto aguarda a chuva para as primeiras plantações. O veranico de janeiro traz esperança para o sertanejo e ao brejeiro.
O brejeiro não perde a serenidade diante do quadro desolador, enquanto mistura ensinamentos antigos às crendices que mostram o panorama da natureza. Naquele ano em que as fotos foram feitas, o homem do Sertão e do Brejo esperou o solstício do verão chegar, preparando-se para o inverno da tardança.
Já o sertanejo, neste período, mais do que o homem do Brejo, su-focado pela seca que se apresenta inclemente, resignado, espera o declínio do período abrasador. Quando ocorre a insurreição da terra contra seus habitantes, o gado agrupado sob o resto da sombra do juazeiro perdido na vasta caatinga, sonolento, estica o pescoço tentando descobrir ração ou cheiro da água.
Observando as fotos de agora, numa comparação com aquelas das paisagens de tempos passados, não existe diferença. A morte po-voa a terra porque desapareceu a aragem das madrugadas. As carcaças de animais se confundem com os esqueletos humanos, que estendem a mão às migalhas escassas.
Os filhos da seca de hoje já não expõem sua miséria, porque co-bertos de vergonha. Como a nuvem esparsa que derrete ao Sol, a ração pouco chega à mesa. Aguardam o tempo passar, encurralados, estendem à mão ao vácuo escuro formado pela distância que os poderes públicos criaram.
A arte levou ao palco a dor e o sorriso triste da nossa gente, que parece não ter fim. O pincel desenhou o prelúdio da desgraça, abandonada pelos poderes públicos. A arte tentando salvar o que ficou no rastro das paisagens agonizantes.
Filhos da mesma sina, a seca não apavora sertanejos ou brejeiros, mas complementa a vida tormentosa que enfrentamos. Com a armadura do próprio corpo nos deparamos com a situação, olhamos as rés mortas ao Sol, e erguemos os olhos ao Céu descoberto, esperando a “chuva do caju” chegar, mesmo sendo chuviscos logo diluídos pelos ares quentes, que não deixam rastros. Logo aumentará a combustão que abafa e comprime-nos. A mão é a esponja para limpar o rosto.