quinta-feira, 30 de julho de 2026
Na paisagem do Recife
30/07/2026

Entre tantos paraibanos que povoaram as ruas do Recife entre o final do século XIX e começo do século XX, onde buscavam os saberes da Faculdade de Direito, Augusto dos Anjos e José Lins do Rego, dois filhos dos engenhos, carregaram destinos diferentes. Ambos foram alimentados com o cheiro do mel cozido, traziam consigo a paisagem bucólica da várzea do Paraíba, e nem sempre escancaravam suas angústias.

A partir de 1903, Augusto dos Anjos estudava naquela cidade vizinha, que fervia no ambiente povoado de cientistas, onde predominava o pensamento de Tobias Barreto, Silvio Romero, Capistrano de Abreu, Joaquim Nabuco… O Recife era palco de acaloradas discussões e debates jurídicos, literários e filosóficos. 

Uma década depois ali se encontrava José Lins do Rego, vindo da mesma paisagem dos canaviais, se deparando com os grandes nomes do pensamento brasileiro, mas bebendo na fonte daquilo que deixaram com subsídios para a formação intelectual do povo brasileiro.

O poeta do “Eu” ruminava pelas ruas da “Veneza Brasileira”, começava a expor suas angústias, pois carregava consigo a tristeza da paisagem onde passou sua infância, a mesma paisagem que foi palco para as estripulias do menino José Lins. 

Se Augusto narra o Recife assombroso, mítico, em cada esquina um fantasma que sua alma identificava. O belo poema “As cismas do destino”, traz o panorama da alma visualizado pelo seu olhar. Já menino do Engenho Corredor fazia daquela paisagem urbana o prolongamento do ambiente alegre dos canaviais. 

Augusto era um homem cismado, que se assustava com sua própria sombra. As noites do Recife fecundavam os vícios que o atormentava. O carvão da treva era a sombra dos edifícios onde tentava se esconder, onde os homens do futuro eram construídos. O Recife dele é angustioso, e foi descrito com seu olhar sombrio como nenhum outro poeta soube captar. 

O olhar de José Lins para o Recife de sua adolescência é diferente, não traz as marcas tristes que a alma do poeta captou. A paisagem recifense dele é alegre, as árvores davam flores e frutos, as esquinas não amedrontaram. Ele levou consigo a paisagem alegre da várzea do Paraíba. Por isso seus textos que falam do Recife são alegres, têm vida.

Seu tempo foi o mesmo de Gilberto Freyre, de Manuel Bandeira, tempo da poesia que expressava a beleza de cada gesto humana, e não a tristeza entranhada na alma.

O olhar do espírito não encontrou nele deslumbramento, mas nas ruas do Recife a alegria interior de sua alma tornou-se grandiosa porque a poesia da várzea do Paraíba contribuiu para isso.

José Lins desvendou nas ruas recifenses o espetáculo grandioso do interior da alma que está nas páginas de “O Moleque Ricardo”.

O artista da palavra escreve o que a alma sente. Mesmo que a os olhos vejam o belo no meio da tristeza, é preciso ter a alma alegre para expressar o sentimento.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).