O meu conterrâneo Hermano José, artista plástico e poeta que brotou em Serraria como um luzeiro entre as serras e canaviais do Engenho Baixa Verde, escreveu um poema no qual diz que “só se faz uma vez”, numa referência que bem serve à barreira do Cabo Branco, de exuberante beleza, agora agonizando.
Dia de resoluta paz, sol leve e maré baixa, decidimos percorrer alguns espaços da Praia de Cabo Branco onde, nos últimos tempos, tenho ido de passagem. Desta vez, foi para um andar lento, repassando na lousa da mente as palavras do poeta, que fez sua passagem para outra dimensão cósmica, referindo à obra de arte da Natureza, quando dizia que somente se faz uma vez um lugar com uma vista panorâmica em igual expressão da barreira, a mais avançada das Américas. Naquela manhã, mais uma vez aproveitava a ocasião para guardar novas imagens da paisagem desmoronando. Um exemplo de que a arte nem sempre repercute como um grito isolado.
Meu deslumbramento de cinquenta anos atrás, quando me deparei com aquela obra-prima da Natureza, novamente estava presente porque era como que eu escutasse o engenheiro Francisco Veloso Galvão, morador de veraneio naquelas imediações, falando que era preciso um olhar mais apurado e vigilante para aquela joia ameaçada. Tinha razão quando dizia que a estrada asfáltica e as construções de grande porte nas adjacências trariam complicações futuras.
O engenheiro gostava de ler Goethe e Platão, e o poeta-pintor admirava os escritores franceses do século XIX. Com estes descobri as sutilezas da beleza do Cabo Branco e, algumas décadas depois, eu continuo seguindo os rastros de ambos.
Espalho meu olhar por toda extensão desmoronando, como vendo o poema se desmanchando a cada arremesso da onda do mar, no pensamento trazendo a pintura de Hermano como consolo para retardar seu desaparecimento na mente.
Enquanto a areia úmida naquela manhã acolhia meus pés em passos lentos, elevando os olhos para esta obra-prima que a Natureza nos presenteou, observamos como perdeu toda a sua imponência e foi esquecida pelos governantes que em tempos alternados chegaram com paliativos.
Cada pedaço da barreira que desaba é uma parte de nós que o mar absorve.
Contemplando de ângulos diferentes, escutando a poesia espalhando-se aos olhos pela vastidão do mar silente durante a maré baixa, o poema ecoava como brado de guerra silenciosa contra moinhos não de vento, mas de cobiça e ganância pelo lucro que proporcionou ao nosso patrimônio natural chegar a uma situação desoladora.
O engenheiro meu orientador e o poeta conterrâneo tinham consciência da importância de se defender aquela joia da Natureza.