Quando o dia clareou sobre uma elevação de terra à nossa frente, o sol rompia uma nesga de nuvem. Do meio da nuvem vinha um farol de raios muito brilhante que descia sobre a vegetação esturricada da caatinga no Vale do Piranhas, onde está localizado Catolé do Rocha, que fotografei com a mente para carregar comigo. A cidade de Brejo do Cruz e a pedra decantada pelo poeta Zé Ramalho, refletindo os raios que entravam na nossa alma, ficaram para atrás.
Desde a primeira vez quando estive na região, tinha conhecimento de que aquela paisagem sertaneja inspirou poetas e acolheu, no passado, tropeiros. Lugar onde cangaceiros fizeram muitas escaramuças e deixaram sua história pelas veredas. Sempre me chamou a atenção as marcas que estão nas velhas casas das fazendas de largas janelas e portas, com os currais de gado bem próximos guardando o urro das vacas e que lembram os bezerros aos pinotes, quando retornavam do pastoreio.
Na semana quando Brejo do Cruz nos recebeu, o vento do agosto espalhava a brisa morna pela paisagem em que o juazeiro, a oiticica, a baraúna, a umburana, a aroeira vermelha, a catingueira, o angico e a jurema se destacavam na vegetação esturricada. A noite acolhia os sonhos e revelava a poesia que os olhos conseguiram captar durante o dia.
A fazenda Cachoeira, localizada no baixio que recolhe todas as águas descidas das serras, tem os rastros de desbravadores dos sertões que carregavam consigo a civilização do gado e do algodão, até chegar aos antecedentes ao ex-governador João Agripino e, depois, aquele universo continuou ocupado por seus descendentes. Ao longo dos anos, como registram os anais da história, o gado leiteiro perdeu a rusticidade e ganhou padrão de alta qualidade para a produção de leite.
Nos dias em que ali estive, na boca da noite, vendo o pôr do sol sobre a vegetação, me fez lembrar de Serraria, onde o entardecer adormece as encostas, enquanto as palmeiras acenam como a escutar os acordes da Ave Maria, entoada pelo vento.
Minha amiga Nara Valusca, que carrega consigo a paisagem de Catolé do Rocha, havia me falado do entardecer de sua terra e mostrado fotografias que pareciam pinturas. Nessa minha passagem pela redondeza de Catolé do Rocha, a beleza do pôr do sol ficou registrada na memória mais do que nas vezes anteriores. Quem quiser, vá lá para saber como é bom viver ali. Aquele vale tem o tamanho de nossa imaginação.
Na manhã em que deixava a região, mais do que nos dias anteriores da nossa estadia, o sol despontou rápido com o calor matinal. Olhando para a imensa pedra que inspirou Zé Ramalho, eu percebia os raios que se espalhavam com eflúvios pela cidade. Um espaço da terra do Avôhai que refletia a força do sol.
A geografia do vale, em período de longas estiagens ou em período chuvoso, e as narrativas de tempos atrás, continuam esperando o cantador que alçou voo como a asa branca. Cheio de astúcia, Zé Rama-lho sempre retorna nas asas do pavão misterioso, cantando galope ou mourão quebrado para o deleite de todos nós.
Voltamos com o canto da rola-fogo-apagou na mente e o brilho do sol no amanhecer. Uma sinfonia que reabastece a alma. Neste lugar as sombras parecem andar com a poesia espalhada pelos campos, nos cumprimentam, nos abraçam e nos acariciam como aragem do entardecer.
Olhando a paisagem silenciosa das pedras, chegam à nossa mente as metáforas sobre a vida do sertão, misturadas com o cosmos, os universos paralelos, os santos, anjos e as visagens que ajudam a vencer as dores da seca. Zé Ramalho, com o profeta, parece que galopa pelas veredas e riachos do lugar. Paisagem onde as sombras se movem e nos emocionam os cantos dos pássaros. Onde o coração responde que o fundamental é ser feliz.
Nem o silêncio em torno da obra do cantador do sertão retira o brilho de sua poesia sobre a região. “O amigo vento” arrasta os sertões até a obra de Zé Ramalho. O Brejo do Cruz esconde Zé Ramalho. Este poeta-filósofo que merece ser revisto.