Quando tive nas mãos o livro “Um olhar no retrovisor e outro na estrada”, de Iêda Lima, veio à mente “Batismo de fogo”, obra literária em que Frei Betto narra as agonias sofridas durante o período militar, descrevendo com sutileza as peripécias e as atrocidades sofridas por ele e companheiros, sobretudo religiosos, nos pesados anos de chumbo que o Brasil viveu.
Gonzaga Rodrigues havia me indicado a leitura do livro de Iêda Lima, quando destacou a linguagem desprovida de adjetivação na abordagem de acontecimentos de um tempo que está na memória das pessoas com mais de 50 anos, justamente o período quando em que os militares governavam o país.
O que me chamou bastante a atenção nesta obra que narra “uma história de resiliência”, é o modo como a autora descreve as maneiras agressivas utilizadas pelos agentes militares, sem usar palavras agressivas. Na sua narrativa ela demonstra que, apesar de todos os estágios de opressão patrocinada pelo governo militar, existia um estoque de esperança de que o sofrimento acabaria.
livro nos leva a percorrer os caminhos da jovem católica que, vendo a necessidade de conscientização e organização do povo nas propostas da Igreja, a partir das ideias surgidas no Concílio Vaticano II, se integrou de corpo e alma porque desejava contribuir para edificar um mundo mais humanizado. Lembramos que o Vaticano II trouxe luzes para os caminhos dos pobres e dos excluídos que vivem à margem da sociedade.
A Juventude Estudantil Católica-JEC- abriu as portas e janelas do mundo para muitos jovens. Integrando este grupo, os jovens descobriam caminhos a partir dos rumos apontados pela Igreja, fazendo surgir lideranças que se destacaram em diferentes segmentos da sociedade.
Foi o tempo em que Iêda Lima construiu a consciência de que “a centralização do poder e a estatização da economia são fatores de atraso para a humanidade, pois abrem portas para a corrupção e a ineficiência”.
Cheia de esperanças, cedo despertou para a leitura como alimento da alma e para a formação intelectual, passando a observar o mundo com olhar humanitário, despertando para o desconhecido.
“O convite para compor a JEC abriu a cortina para um mundo que eu não conhecia e a porta para a descoberta do amor e da política”, escreveu. O desejo era de que o “amor, no seu termo mais simples e ingênuo”, contribuísse para as mudanças que a sociedade aspirava. Tudo o que ajudasse na edificação de uma política como ciência da organização, como uma arte para guiar o povo.
Talvez mais do que nos tempos atuais, a juventude daquela época tinha uma consciência crítica da situação política e econômica do país, discutia mais do que uma simples troca de mensagens de relacionamento. Os jovens queriam contribuir para mudar a situação de penúria de famílias que estavam cada vez mais sufocadas pela crise econômica e pela opressão por parte do governo militar. Eram jovens que se compadeciam do sofrimento alheio, sendo levados a manter esse olhar piedoso a todo custo.
A atuação da juventude católica naquele momento, até certo ponto, criou ambiente entre os jovens para apontar as feridas da sociedade. As atividades culturais e as discussões sobre a realidade social e política do Brasil foram valiosas para que Iêda Lima pudesse se transformar em uma ativista consciente.
Muitos leigos integrados em comunidades de base fizeram brotar lideranças jovens que, mais tarde, impuseram a bandeira da liberdade.
Esses jovens da JEC, mais do que os de outros movimentos dentro da Igreja e da Universidade, lutaram para desmontar a “usina de punições políticas” que se instalou no país depois do 1º de abril de 1964.
Recordando as palavras do jornalista Elio Gaspari, ela recorda que os “jovens brasileiros se sentiam livres e cúmplices numa sociedade pobre e injusta”.
“Não pude ficar à margem dessa arbitrariedade e me somei às lideranças estudantis em defesa da democracia no País”, assinalou. Na parte final do livro Iêda Lima narra os momentos vividos na clandestinidade em vários países, como uma nômade, junto com o marido e filhos.
