João Pessoa, quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Sivuca e nós   
01/09/2026

 Na crônica de Gonzaga Rodrigues no Ambiente de Leitura não faltaram recordações dos encontros de sábado à noite no terraço da casa de Nathanael Alves, em Tambauzinho, quando amigos revelados e alimentados pela arte da leitura e de escrever trocavam conhecimentos. Lembra o cronista da recepção ao galego Sivuca, que havia chegado dos Estados Unidos onde, com sua genialidade no manuseio da sanfona e outros instrumentos musicais, fazia os americanos do norte arregalar os olhos e os ouvidos para ouvi-lo.

 Esse encontro ao qual Gonzaga se refere, eu estava lá, anônimo. Jovem taciturno e encabulado que andava como um camponês, escutando mais do que falando, sempre num recanto do terraço. Na noite em que o sanfoneiro foi recepcionado na casa do meu amigo, lá se formou uma roda de admiradores do conterrâneo que fazia fita no estrangeiro.

 Foi a primeira vez que estive tão perto do maior sanfoneiro que tivemos, que chegou deu vontade de tocar com a ponta do dedo na roupa dele. Muitos anos depois, consolado porque outras oportunidades surgiram para estar próximo dele, aconteceu na cidade de Zabelê, localizada no Cariri paraibano, ali ao meu lado estava o homem que arrancava os mais bonitos acordes da sanfona que a Paraíba criou.

 Vendo que um grupo de crianças dava continuidade aos folguedos de boi-de-reis, Sivuca estimulou a todos a manter viva as tradições, lembrando que, menino pequeno em Itabaiana, tomou gosto pela sanfona ouvindo tocar fole de oito baixo nos bailes na ribeira do Rio Paraíba.

 No encontro na casa de Nathanael, a qual Gonzaga se refere, lembro apenas que um dos assuntos foi a entrevista a Evandro Nóbrega, de duas páginas, publicadas no Jornal O Norte, concedida por Sivuca, na qual fala de sua trajetória desde os tempos da juventude e da temporada nos Estados Unidos. Para encurtar nossa curiosidade, sem ter que esperar o dia seguinte para a leitura da entrevista, entre nós estava o próprio entrevistado esmiuçando sua caminhada de sanfoneiro, de Itabaiana para o mundo.

 Tanto no primeiro deslumbramento no terraço de Nathanael, quanto no encontro em Zabelê, o sanfoneiro que encantou Nova Iorque, não se apresentou como uma dessas “raras figuras que suportam esse aumento, que se transformam em celebridade sem ficar bestas”, como revelou Gonzaga na crônica do domingo.

 Se no encontro em final dos anos de 1970 apenas me deslumbrava por estar junto a uma figura que arrancava aplausos das seletas plateias, foi grande o contentamento de vê-lo entre as crianças cararizeiras, despojado das pompas dos grandes palcos mundiais, recolhendo os eflúvios do entardecer com a brisa do Aracati.

A mesma grandeza que Gonzaga sentiu durante a conversa no encontro com os amigos, eu senti nessas duas ocasiões em que Sivuca recolheu para junto seus admiradores. Uma grandeza aumentada aos olhos do mundo, mas que se mantinha em tamanho natural quando estava junto aos seus conterrâneos, como ressaltou o cronista.

No tumulto da admiração anônima por Sivuca, busco a permanência e a continuidade dele nos gestos em favor da cultura musical, recordo as palavras de estímulo aos jovens de Zabelê que Sandra Belê reuniu para a apresentação dos folguedos do folclore nordestino.  

Ele aprofundou a linguagem da sanfona para o deslumbramento de muitos, que é a harmonia da alma, sem perder o olhar para a rapadura nem a carne-de-sol. Por isso, na tarde de Zabelê quando tocou “Feira de Mangai”, deixou crianças de olhos arregalados e certamente fecundou espiritualidade poética.

 Como a produzir poemas que encantam, Sivuca manuseava a sanfona com recursos emotivos e magia que deixava as plateias extasiadas pela emoção mística causada pela música.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).