João Pessoa, domingo, 30 de agosto de 2026
O menino e o carneiro
29/08/2026

Quando o menino conduzia o carneiro pelo cabresto para participar dos desfiles de escolha dos melhores da exposição, lembrei do carneiro Jasmim de José Lins do Rego. O manso carneiro que seguia para a glória de sua imponência, carregava semelhanças com o fogoso animal da montaria ao menino Carlinhos, que mais de cem anos atrás, passeava pela bagaceira e arredores do Santa Fé.

O menino Carlos de Melo ganhou afeto pelo carneiro da bagaceira. Se apegou ao Jasmim, debulhando rosário de afeto porque o animal escutava sua voz, dava seu lombo para montaria e aos olhos da bagaceira, esquipava pelas estreitas estradas do Pilar. 

Aquele olhar tristinho do neto do senhor dos engenhos quando viu seu amigo sendo levando ao abate por ocasião do casamento da tia Maria, é dos mais revelador da angustia da literatura de José Lins do Rego.

O Carlinhos do engenho, criado com o excesso de cuidados pelas tias e pela avó, a pele branca, as mãos finas e o olhar cansado, sendo visível o contraste com o menino de Ouro Velho que, construído no mormaço dos sertões do Cariri, conduzia o animal para a glória da raça, mais pela exibição do que pelo troféu disputado. 

Daí a pouco o menino sertanejo exibe seu troféu e o carneiro como prêmio maior, o animal que está mudando a economia da região porque seus pais assim acreditam. Ele certamente não conhece nada de economia, mas a alegria de puxar pelo cabresto seu animal é o que interessa.

Certamente tanto ele, como seus pais e a grande maioria presente na exposição de animais, nunca ouviram falar do autor de Menino de Engenho porque a literatura e as artes não interessam. Mas se interessam pela criação de caprinos, a vocação redescoberta há poucas décadas, mas estes animais – ovinos e caprinos – povoaram os sertões desde quando a civilização chegou aos pés de serra. 

Olho para a cara do menino, talvez tenha pouco mais de uma década de vida, mas tem a mesma feição que tive quando criança nascida e crescida na roça, de pela queimada e olha fixo aos horizontes inabitáveis. Aquilo era um divertimento para ele, nunca uma necessidade. Para mim, uma necessidade. Para ele e eu, a escola da vida completou o ensino da Cartilha do ABC. 

O modo como acariciava, o abraço no pescoço do carneiro e os acenos davam a dimensão da alegria vendo seu animal de estimação, o reprodutor recebendo a condecoração de maior destaque entre os presentes. Talvez o troféu seja estimulo à sua família, como, ali perto, outras crianças e adolescentes, estendiam seus olhares para os saberes culturais, buscando manter vida a língua do passado de sua gente.

Enquanto andava com seu carneiro pelo pátio, como a mostrar a imponência de seu troféu, em galho da baraúna no aceiro do terreiro, um sabiá entoava uma melodia. Ao redor e por toda extensão da caatinga, o calor era intenso. Era primavera, mas nessa região não há primavera. Mas o calor e o vento morno davam dimensão da estação quente no semiárido. 

No entardecer avermelhado sobre a caatinga esturricada escutava longe um chilrear de pássaros, junto com um vento morno que beijava a todos. Uma louvação ao carneiro do menino de Ouro Velho não se assemelhava a passarada de cem anos atrás, quando coleiros, bem-te-vis, galos-de-campina, tizius e papa-capim executavam sinfonia enquanto o menino de engenho passeava com seu Jasmin por entre os partidos de cana.

Cada carneiro no seu tempo, com sua imponência.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).