Enquanto Lula busca ampliar o diálogo Brasil-EUA e recebe pessoas de todo o mundo para debater a crise climática, Cláudio Castro prepara o terreno para intervenções norte-americanas no Brasil.

A COP-30 deslocou o debate público da chacina nos complexos do Alemão e da Penha para Belém do Pará, onde o Brasil lidera iniciativas fundamentais para o futuro da humanidade, como o Fundo de Investimento das Florestas e a unificação do mercado global de carbono. Todavia, mesmo sob o manto da emergência climática, convém não esquecer que ao matar mais de 120 criminosos que deveriam ser custodiados e julgados, permitindo ao sistema de justiça identificar suas conexões para além das favelas, o governador Cláudio Castro promoveu uma ação necrófila, de cunho midiático, para garantir sua eleição ao Senado, no exato instante em que o TSE analisa sua cassação por abuso de poder econômico.
Parte da histórica cadeia de tolerância pela qual os cariocas há décadas convivem com o crime organizado, muitas vezes de forma festiva, como no carnaval, essas operações, inócuas para a segurança pública, funcionam como um espetáculo pirotécnico pelo qual autoridades frequentemente pouco afeitas ao combate ao crime organizado buscam ludibriar a população que, escaldada por décadas de violência, recebe com alento qualquer sinal de combate aos criminosos. Por certo, o governo Castro está ciente dos laços orgânicos entre a banda podre das polícias, políticos, autoridades e as diferentes organizações criminosas que atuam no Rio: traficantes, milicianos e bicheiros, megaconglomerados que combinam tráfico de drogas, controle territorial e seletismo político, em um esquema autopoiético que se retroalimenta sem fim. Logo, é de se esperar que, com a proximidade das eleições, haja outras operações nas favelas cariocas, ampliando o número de mortos e pavimentando o caminho de Castro ao Senado.
Mas as operações letais no Alemão e na Penha trazem um componente oculto, pouco debatido na mídia, ligado às relações Brasil-EUA. Em maio de 2025, uma delegação norte-americana fez reuniões com o Itamaraty e com o Ministério da Justiça propondo que organizações criminosas (notadamente CV e PCC) fossem classificadas como organizações terroristas. Diante da negativa do governo federal, posto que crime e terror são realidades distintas, essa delegação se reuniu com outras autoridades políticas, dentre as quais o senador Flávio Bolsonaro e o governador Cláudio Castro, que acolheram a proposta americana. A partir daí, a paradiplomacia fluminense passou a municiar Washington com relatórios e informações seletivas sobre as organizações criminosas que atuam no Rio de Janeiro.
Quais os ganhos pretendidos pelas partes em conluio? Os EUA buscam legitimar intervenções na América Latina, ratificando a região como seu quintal face à disputa geopolítica com a China. No rastro da Ordem Executiva 14.157/2025, pela qual o narcotráfico foi equiparado ao terrorismo, Trump reposicionou os EUA como polícia do mundo, autorizando suas forças de segurança a combater o tráfico, mesmo que ao arrepio da soberania alheia, como ocorre na Venezuela. Já para o clã Bolsonaro e seus partidários, a aliança com os EUA traz ganhos eleitorais, sinalizando ao cidadão assustado que só a extrema-direita possui o ímpeto e as articulações necessárias para combater o crime organizado, além de fixar sobre Lula a pecha da conivência com o narcotráfico. Nas redes bolsonaristas, Lula é frequentemente apontado como leniente com o crime, senão como líder de organizações criminosas.
A cooperação entre o governo Trump e a extrema-direita brasileira tem avançado silenciosamente. No mesmo mês de maio, o PL 1283/2025, que havia sido protocolizado dois meses antes pelo deputado federal Danilo Forte (União/CE), foi aprovado em regime de urgência por cerca de 330 parlamentares, estando apto para votação em plenário. A relatoria ficou com o deputado Guilherme Derrite (PP/SP), ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo. A ideia é incluir as facções criminosas na Lei 13.260/2016, a Lei Antiterrorismo, promulgada no governo Dilma Rousseff.
Parlamentares e políticos favoráveis a essa proposta argumentam que ela ampliaria o combate ao crime, inclusive pela cooperação internacional. É possível que muitos acreditem de boa-fé nesse argumento. Todavia, na prática ele é falacioso e traz severos riscos embutidos. Quais são esses riscos?
O primeiro é que isso permitiria às autoridades norte-americanas prender qualquer pessoa acusada (ainda que sem provas) de pertencer a essas organizações, incluindo autoridades públicas. O segundo é a possibilidade de bloquear bens e investimentos de pessoas ou empresas que tivessem qualquer conexão (efetiva ou não) com o crime organizado. Isso abriria a porteira para que qualquer um que tenha tido alguma relação econômica, financeira ou comercial (ainda que absolutamente involuntária) com pessoas ou empresas sancionadas também seja sancionado. A título de exemplo, bancos e fintechs que operam com o PIX, um instrumento muito criticado pelos EUA, poderiam ser alvo de sanções pelos EUA, abrindo uma porta para um intervencionismo sem precedentes na história do Brasil. Por fim, essa inclusão também permitiria aos EUA atuar militarmente ou como polícia dentro do Brasil, ainda que abatendo embarcações e aviões civis, como vem sendo feito com a Venezuela. Em todos esses casos, a soberania brasileira é diluída, com um custo econômico incalculável.
Não há dúvidas de que os EUA têm muito a contribuir no combate ao crime. A América é o maior mercado consumidor de drogas do mundo e também um dos principais fornecedores de armas, inclusive drones e fuzis, para o crime organizado. Além disso, a ordem executiva n. 14.157/2025, citada acima, reduziu os riscos legais de empresas que atuam em regiões marcadas pela forte presença de organizações criminosas, enfraquecendo, em solo americano, o combate ao narcotráfico. Nada disso, entretanto, está no horizonte daqueles que defendem a equiparação do crime organizado ao terrorismo.
Ao não distinguir deliberadamente a verdade da mentira, o trumpismo e o bolsonarismo operaram na seara do cinismo político, fincando raízes em uma terra fértil, que, adubada pelo medo, faz com que a sociedade aplauda chacinas, vote em seus promotores e retroalimente as organizações criminosas. Após mais de 40 anos de chacinas e repressão, o crime está cada vez mais forte, atua nacionalmente e controla mais territórios, impondo suas regras aos moradores e pondo em pânico aqueles que, no morro ou no asfalto, são vítimas de suas ações. Vamos continuar fazendo mais do mesmo? Esse é o caminho?
Enraizado nos poderes públicos e na economia formal, o crime organizado só poderá ser combatido pela articulação de agências federais e estaduais, inclusive a Polícia e a Receita Federal, ações de informação e inteligência dos ministérios públicos federal e estaduais, patrulhamento das fronteiras e combate sistemático ao contrabando, além de forte repressão às estruturas de financiamento do crime organizado, como feito recentemente pela Operação Carbono Oculto, que, sem disparar um único tiro, desmontou vastos canais de financiamento e lavagem de dinheiro do PCC. A PEC 18/2025, conhecida como a PEC da Segurança Pública, rejeitada por Castro, é o caminho a ser percorrido. Afinal, é importante unir esforços na construção de novas legislações e protocolos, para que os velhos santos do pau oco não mais prosperem eleitoralmente com falsas ações de combate ao crime, que, eleição após eleição, somente aumentam a força e a presença nefasta dos grupos criminosos na sociedade.