“Ao mestre, com carinho.”
Composto numa unidade cidadã, consegue ser múltiplo de si mesmo — ao eterno — como os impressionantes números, de quem é parente e herdeiro, e dos quais a Igreja tomou emprestado seu dogma fundamental.
Sou seu aluno-devoto-juvenil desde que o ouvi, ainda estudante, declamar os versos do amor impossível de Gonçalves Dias por Ana Amélia — aquele mesmo poeta que integrou a famosa Comissão Científica Exploradora do Império, percorrendo os sertões do Nordeste, entre eles Jatobá e o Piancó. Também nos brindava com os satíricos (em público) e erótico-irônicos (em grupos) do genial, ‘altarizado’, Gregório de Matos — o Boca do Inferno.
Guardamos uma pauta permanente, numa sessão extraordinária do cotidiano a que nos entregamos. Divergimos no fonema da palavra rota, tal como entoada na canção de Secos e Molhados, composta sobre o poema Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes. E, entre os acordes e as pausas, partilhávamos também os silêncios do jardim de Vinicius.
Nessa pauta, há uma constância bibliográfica — agora renovada pelas novas aquisições da Cartilha Nordeste, de Maria Cecília Rego Ávila — que colecionamos desde a infância escolar: ele, desde o rio Piancó; eu, desde o rio Piranhas. Falta pouco para sermos mar: universais e completos — após aquele glorioso encontro em Pombal.
Hoje, tenho a honra de compartilhar consigo a advocacia — onde o mestre já chegou sublime — por ser emérito professor da disciplina núcleo essencial e basilar do conhecimento jurídico. Nela assisti, na escola da UFPB, ao brilho de Carlos Coelho de Miranda Freire.
Já o conhecia como refinado escritor de livros de Ortografia — desses que preservam, com esforço hercúleo, a língua no bolso, para assegurar que todos entendam a comunicação.
Depois, soube-o — pela vida antiga — locutor e apresentador de rádio.
E ainda lhe sobra tempo de ser editor, com o mesmo esmero que qualquer atividade exige desse ser múltiplo que se consagra no nome — numa clara lembrança da Trindade: Deus, o Filho e o Espírito Santo, um só em três. Nem lhe mostrei, porque ainda dedicado à cura dos rascunhos, minha novela A Sombra Colorida, que teimo em escrever há anos — mas não a publicarei sem o seu Nihil Obstat.
As águas de maio abrem o inverno na capital da Paraíba. E algo na vida desse poeta reclama a constância da água, como no conto A busca de Averróis, de Borges, em que o filósofo andaluz Ibn Rushd tenta compreender, com as ferramentas da própria cultura, o que seriam “tragédia” e “comédia” — sem jamais ter visto um teatro. Assim também o mestre, diante de seus alunos, traduziu o mundo com o que tinha à mão: a língua, a memória, os livros, a fé. Para nós, sertanejos, essa estação é uma bênção: o choro compadecido de Deus.
Terminei não indo à sua posse: o excesso de chuvas não colaborou com o trânsito, e a cidade exigia cuidados em seus movimentos.
Sei que agora a imortalidade chamou o mestre (um nome evangelicamente reservado) — não por aquisição de indulgências temporais nem pela mercancia de favores e elogios recíprocos, como diria Antero de Quental — mas por merecimento: João Trindade Cavalcanti.
Ele não está naquela classificação de Paul Valéry, para quem a Academia seria composta “…pelo mais habilidoso dos homens não talentosos e pelo mais
ingênuo dos homens talentosos.” Trindade é exceção honrosa: sábio sem ingenuidade, justo sem autopromoção, culto sem vaidade.
A ele, meus mais sinceros agradecimentos — não como aluno e devoto, mas como terráqueo — por me permitir compartilhar a mesma gravidade contemporânea.
Ad Imortalitatem.