Em franca contrariedade ao Direito Internacional, os Estados Unidos escancaram a lógica das grandes potências, maximizando poderes para conquistar hegemonias.

O ano começa com fortes emoções. A sombra do intervencionismo que pairava sobre a Venezuela agora ganha corpo na forma de bombardeios e capturas. Não faltarão aplausos para Donald Trump. Afinal, o polêmico Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, estão sob custódia americana e serão julgados por um tribunal federal em Nova York pelos crimes de narcoterrorismo, conspiração e porte ilegal de armas. Pouco importa se há provas ou não contra o casal.
Do ponto de vista operacional, é evidente que as forças americanas contaram com o suporte da “quinta coluna”. Não houve reação. Seria impossível ingressar no país, invadir o palácio presidencial de Miraflores e capturar o presidente sem que as forças locais oferecessem real oposição. Essa tese, vale notar, tem sido apregoada inclusive por setores da oposição venezuelana, que denunciam a operação norte-americana como parte de um “teatro macabro”, insinuando que a captura de Maduro e Cilia seria uma ação coordenada entre Washington e Caracas para garantir um fim honroso ao regime madurista.
Ainda há muito a saber sobre a captura de Maduro, mas o fato é que essa ação está diretamente relacionada à nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, pela qual a América Latina é vista como o “quintal” da América. O recente discurso de Trump não deixa dúvida de que ações intervencionistas (militares ou não) serão realizadas sempre que o interesse nacional americano estiver em jogo.
A Doutrina Monroe 2.0 diminui a presença de Washington na Europa e no Oriente Médio, mas reafirma sua hegemonia no hemisfério Ocidental, militarizando as relações com a América Latina e apertando o torniquete em busca de um maior alinhamento político, ideológico e comercial.
Depois de retomar o controle do Canal do Panamá e ameaçar a soberania do Canadá, após reforçar a política anti-imigratória e confrontar opositores internos, Trump, premido pelos escândalos sexuais do Caso Epstein e pela baixa popularidade atual, lança mão de um polêmico ataque na Venezuela. Agindo dessa forma, ele reconfigura a noção de soberania, moldando-a aos seus interesses.
O momento é de apreensão. Na Venezuela restam muitas dúvidas sobre o futuro do país. Quem irá assumir o poder? Delcy Rodríguez será a nova presidente ou Edmundo González e Maria Corina Machado voltam ao jogo político? Há riscos de uma guerra civil?
No Brasil, a captura de Maduro joga gasolina no cenário político-eleitoral, já que Lula é visto por muitos como um aliado do ex-líder venezuelano. Com Mercosul e OEA enfraquecidos, com a ONU esvaziada, a sanha hegemônica de Trump reforça a retórica pró-EUA dos direitistas e isola politicamente o presidente Lula, abrindo flanco para que as eleições de outubro sejam impactadas.
No mérito, há que se condenar a agressão militar norte-americana contra a Venezuela como violação evidente ao Direito Internacional e à soberania nacional. Todavia, em tempos de crise, a política frequentemente se sobrepõe ao direito. Mais do que nunca é necessário equilíbrio e diálogo. 2026 chegou chegando. O ano promete fortes emoções.