“Alegremente, como seus sóis voam
Através da esplêndida abóbada do céu,
Correi, irmãos, pela vossa rota,
Jubilosos, como um herói rumo à vitória!”
— Schiller, Ode à Alegria
Houve um tempo em que a Via Láctea — sim, a própria — sentia uma pequena fisgada no subbraço de Órion. Era só uma coceira, quase nada, entre os braços de Perseu e Sagitário. Mas era incômoda, persistente como uma pulga existencial num canto perdido do braço esquerdo.
A galáxia, que há eras se equilibra em silêncio e rotação, resolveu fazer o que qualquer organismo maduro faria: consultar Esculápio. Ou melhor: aplicar seus protocolos. Mandou uma sonda, dessas discretas e certeiras. Chamava-se Iaso — nome suave, filha da cura.
Ela foi até lá, vasculhou os sistemas, farejou estrelas, escutou o ruído de fundo…e encontrou a inflamação: Adamah. Os locais a chamavam de Terra, mas o nome antigo era mais preciso.
Era um chão avermelhado onde se erguera, nos últimos milhões de anos, uma espécie falante — e faladora: chamavam-se humanos, e diziam-se sábios.
Segundo os exames, o problema não era genético, nem climático, nem moral; era simbólico. A espécie havia aprendido a falar — e se apaixonara pela própria voz. Inventou religião para nomear o invisível, e depois usou esse nome para matar. Inventou política para organizar o povo, e depois a transformou em método de poder. Inventou arte para lembrar o que não cabia, e depois a usou para promover o que sobrou. Inventou o discurso — e com ele passou a se alimentar do próprio reflexo.
A galáxia, prudente, decidiu não interferir: tomou um remédio.
A cápsula, lançada por um buraco negro com mira de bisturi, tinha nome sussurrado: Hygieia. Mas entre os humanoides passou a ser conhecida como 3IAtlas — talvez por medo de aceitar que a cura vinha sem lógica, sem aviso, sem permissão.
Como a cápsula era composta rendeu um debate sem fim entre neo-deuses que a viram chegando. Esses se autointitulavam cientistas do tipo Magister Dixit: aqueles que não podem ser contestados.
Quando a cápsula se abriu, sem interferência dos locais, viu-se que o seu conteúdo era musical. Não havia toxina, nem código, nem sermão. Havia apenas som — uma composição antiga. A fórmula, embora sofisticada, era simples em alma: a Nona Sinfonia de Beethoven, porque a alegria ainda merecia defesa.
A música foi ouvida por bilhões; tocou em playlists e serviu de trilha sonora para anúncios, casamentos, mortes e vídeos de gatinhos.
Mas apenas dois escutaram como se escuta o que está por trás do mundo.
Um era homem — ou melhor, macho da espécie. Aprendera a ouvir sem querer: escutava a vizinha tomar banho através da parede fina do banheiro conjugado. E num desses vapores sonoros, ouviu a cápsula chegar. Sensível ao som, discernia das imagens o significado.
A outra era fêmea — viva, despercebida, como são as que não precisam parecer. Nunca estudou música. Mas vivia em estado de afinação. Ao som da cápsula, não se espantou — apenas entendeu.
Eles não se conheciam. Viviam longe, em fusos diferentes, sob idiomas distintos. Mas seus corpos vibraram no mesmo compasso.
Enquanto isso, os demais — os “Dinamitais” ou “Atômicos”, como a cápsula os classificou — reagiram mal à cura. Confundiram a música com ameaça. Criaram debates, manifestos, doutrinas. Diziam que o remédio era antidemocrático. Que a galáxia era tirana. Que a liberdade de separar as coisas em conflitos eternos era mais importante que o amor ao todo. Tudo era política e não amor. Então lutaram, armados de razão e sarcasmo; morreram em nome de tudo — exceto do silêncio.
Quando o mundo se calou, quando os discursos murcharam sem plateia, quando os slogans perderam sabor…os dois ainda estavam vivos; sobreviveram. Não como heróis, nem como representantes; apenas vivos.
E um dia — não importa quanto depois — encontraram-se. Não como Adão e Eva. Não como arquétipos. Zé e Maria. Apenas isso. Como se o próprio planeta dissesse: agora sim — vamos tentar com menos mitologia e mais silêncio.
Ninguém soube onde. Alguns dizem que foi num chão rachado pela seca, lá em Jatobá, onde só os olhos ainda tinham água. Outros, que foi numa clareira aberta por um raio. Alguns juram que foi no sertão onde Asa Branca foi composta. Não importa.
Quando se olharam, não disseram nada. Porque já estava tudo ouvido. E então, sem glória, sem anúncio, começou de novo.
Com amor ao todo.
Com afinação.
Com tempo.
E só muito depois — quando algum curioso pediu o nome daquele remédio que salvou a galáxia da infecção autorreferente — alguém sussurrou:
“Chamavam-no, entre os humanoides, de 3IAtlas. Mas seu nome verdadeiro era música.”