terça-feira, 21 de julho de 2026
Lula e Trump – diálogo ou emboscada?
29/09/2025

A 80ª Reunião da ONU trouxe a possibilidade de um encontro entre Lula e Trump. Resta saber o que poderá ocorrer nessa reunião.

A 80ª Reunião Anual da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) produziu efeitos significativos. Como exemplo, temos que nos conflitos na Ucrânia e em Gaza, as partes mais vulneráveis saíram politicamente fortalecidas. 

Em dura contenda com a Rússia, a Ucrânia retomou parte do prestígio perdido junto aos EUA. Em seu discurso, Trump criticou Vladimir Putin, defendeu a derrubada de caças russos que invadirem o espaço aéreo da OTAN e classificou a Rússia como um “tigre de papel”, por sua incapacidade de suplantar os ucranianos de forma sumária. A nova postura de Trump, embora não altere significativamente as ações da Casa Branca, valoriza a aliança com as potências europeias e os esforços de Zelensky para que a Ucrânia não seja abandonada pelo Ocidente.

Por seu turno, a Palestina – cujo líder, Mahmoud Abbas, não recebeu as credenciais para comparecer à 80ª AGNU, evidenciando que Nova York já não é uma sede adequada para a ONU – obteve seu reconhecimento como Estado nacional por importantes potências do Ocidente Global, como França, Inglaterra, Canadá e Austrália. Aos olhos do mundo, o morticínio provocado pelas forças israelenses em Gaza ultrapassa sobejamente os limites do “direito de defesa e retaliação”, assumindo a feição de um verdadeiro genocídio. Isso vem ampliando os apoios à solução de dois Estados – rejeitada por Israel – para que palestinos e judeus possam coexistir sobre bases razoáveis do ponto de vista humanitário.

Mas uma das ações mais inusitadas foi o encontro nada casual entre Lula e Trump nos bastidores da Assembleia. O que deveria ser uma conversa informal de 10 minutos, se transformou num “esbarrão” de 39 segundos, mas com dividendos para a relação Brasil-EUA. Afinal, ao dizer que Lula parece “um cara legal” e que houve uma “excelente química” entre eles, Trump abriu uma janela negocial pela qual os esforços para distensionar as relações bilaterais começam a surtir efeito. 

O caminho da negociação tem sido sinuoso. Por um lado, o Itamaraty vem batendo na tecla de que o histórico de amizade entre os dois países prevalece sobre as disputas do presente. Por outro lado, o Legislativo e o próprio Planalto – cuja força diplomática é notória – vêm tentando furar o bloqueio. Por fim, empresários de ambos os países atuam pela via da diplomacia corporativa, mostrando que o jogo diplomático atual vai muito além das chancelarias estatais, abarcando diferentes atores com atuação internacional. Foi assim que os irmãos Batista, da JBS, conseguiram furar o muro erguido contra o Brasil por Steve Bannon, o estrategista de Trump, e Mark Rúbio, seu “sectário” de Estado.

Com venezianas entreabertas, resta aguardar os próximos passos. Está cada vez mais claro que as ações do clã Bolsonaro, embora reais, têm um peso relativamente pequeno nas sanções impostas contra ao Brasil e contra autoridades do Judiciário nacional. 

Para além das diatribes de Eduardo Bolsonaro, que relegou seu mandato parlamentar para garimpar favores privados para si e sua família, as verdadeiras motivações para as sanções norte-americanas estão relacionadas aos esforços brasileiros de regulação das “big techs”; bem como à presença pivotal do país nos BRICS, onde a desdolarização do comércio recíproco ganha força. A regulação das “big techs”, dentre as quais a rede “X”, permitiria a responsabilização dessas empresas por crimes diversos – inclusive fake news e crimes de ódio – praticados por usuários, bem como limitaria seus impactos nocivos em futuras eleições. Por seu turno, a desdolarização do comércio entre os BRICS ameaça a hegemonia do dólar, acelerando a decadência de um império, que, pressionando faz da imprevisibilidade e do caos as pedras angulares da sua política externa. 

Por tudo isso, o encontro entre Lula e Trump promete. Negociadores experientes, os dois líderes possuem personalidade forte, são carismáticos e experimentados no jogo político. Embora suas credenciais de poder sejam assimétricas, com vantagem para o “agente laranja”, Lula não estará em total prejuízo. Afinal, o “tarifaço” de Trump (ainda) não produziu os efeitos desejados. Logo, no plano interno, Lula está fortalecido pela resiliência da economia brasileira, cuja performance continua muito acima do que seus adversários gostariam. Além disso, gozou o bônus de assistir de camarote a condenação de Bolsonaro pelos crimes do 08 de janeiro. Já externamente, o Brasil tem sido hábil em conquistar novos mercados, em especial na Ásia, onde a parceria com a China assume caráter cada vez mais estratégico. Dessa forma, embora os EUA sejam muito importantes para o Brasil, o peso da América hoje é significativamente menor que há algumas décadas. A dependência persiste, mas é (muito) menor do que já foi.

Portanto, o Brasil deve seguir com sua postura altiva, pela qual a soberania nacional e a independência do Judiciário são inegociáveis. Da mesma forma, as ações externas do país, inclusive junto aos BRICS e outros temas sensíveis, como meio ambiente, multilateralismo e governança global, também não estão em jogo. Todavia, o mercado interno brasileiro, suas terras raras e as compraspúblicas do país, além da expansão de “data centers”, com fartos subsídios públicos, são concessões possíveis que interessam à Washington. 

Ainda não há formato (virtual ou presencial) ou data para o encontro entre Lula e Trump. O local também está em aberto, podendo ser Washington, Brasília ou Belém, caso o “laranjão” resolva vir à COP 30. Itália e Indonésia também estão no horizonte, bem como a Malásia, onde Lula estará no final de outubro para a reunião da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). O certo é que o brasileiro está numa sinuca de bico. Não tem como se negar ao diálogo, ao mesmo tempo em que sabe que pode ser achincalhado publicamente pelo líder americano, como aconteceu com Zelensky e Ramaphosa, presidente da África do Sul. Por isso, o brasileiro está ciente de que um acordo que limite as sanções norte-americanas ao Brasil, inclusive no que tange à aplicação da Lei Magnitsky, pode não sair no curto prazo. Todavia, se for capaz de sustentar um diálogo equilibrado com Trump, terá marcado um golaço, colocando mais uma estrelinha em sua biografia de liderança do Sul Global e se cacifando para as eleições de 2026.

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