quarta-feira, 29 de julho de 2026
Lapides loqui
02/11/2025

“O Senhor é o meu pastor. Nada me faltará.”

Meu pai me ensinou que o Dia de Finados é, como morrer, uma viagem.
Há alguns anos — desde ontem à noite — eu estava preparado para irmos todos ao Riachão de Sá Mariinha, a minha avó, e às cidades de Barro e Mauriti, no Ceará.
O jeep, geralmente de seu Nobelino Cosme, dormia lá em casa, e o motorista, se não fosse papai, seria Assis Doidinho, Ernani ou outro.

O sol nos tocava às costas quase na Boa Vista, quando terminávamos de comer o pão quente das padarias de Zé Domiciano ou de João Firmino. Eu sempre ia no bagageiro. No ano em que fiquei reprovado, o bagageiro foi ainda mais uma pena.

Minha irmã Iacira, quase mudando de cor, cheirava folhas de marmeleiro para “não enjoar”. Iraneuza dedilhava orações em um silêncio de eco profundo. Amélia fazia algazarras. Oscar e Conceição pouco iam conosco, porque já moravam fora. Bilinha estava para auxiliar.

Quando era o motorista, papai, parando aos comentários, contava as histórias de cada pedra, das curvas, da estrada, das árvores, das casas e, principalmente, de pessoas. Era o nosso Grivo.
Gente! Eu sei cada história de pedra.

Ele parava, de vez em quando, intimado por pessoas em janelas e varandas, ao grito de: — Seu Aripuã!? — para examinar doentes, receber presentes ou simples agradecimentos.
As receitas estavam aviadas ali mesmo: eram “amostras grátis” que ele levava consigo, ou outras tiradas da natureza das pessoas e da cultura local. Daquelas apreendidas nos livros de Napoléon Chernoviz.

Não parecia, mas nós gostávamos muito quando o “pratinado” forçava o carro à parada e a poeira nos cobria como quem desejava dividir a cena. Em algum sítio, um pé de jasmim me marcou o olfato para sempre.

Já n’Os Rosendo, eu quase via o Riachão, depois de passar pelos Conselhos, pelo Curral da Onça e deixar o Trocedor intocado na memória, como pena.
Ele parava, primeiro, na Casa da Colina do Riachão de Baixo, a Casa dos Cabelos de Prata, para tomar café, fumar – e renovar a prosa. Eu chupava uma laranja-da-terra, cujo sabor repetirei no paraíso.

Alguns de nós — eu, às vezes — caminhávamos até a casa da vovó, fosse pelo caminho principal – dos carros, fosse pela Estrada Antiga, onde está a Cruz de João Belo, irmão de Pedro Belo, o da risada encantada.

Na casa da vovó tinha a bênção; do meu rosto, o nariz; e da minha fé, um rosário deslizando sobre o peito coberto por uma blusa branca bem leve, guardado no pescoço por uns cabelos brancos presos à marrafa.

A casa era linda, mas ainda resiste querendo ser como antigamente. Telinha preparava um café com tapiocas, ovos e até pão aparecia.
E lá estavam os tios Antenor, Padim Zé e a tia Fanguinha, que depois voltou. Nós chamávamos isso de “Visita de Covas”.

Na cidade do Barro, era a casa da tia Dondon, cujo rosto, diziam, lembrava muito “a Finada Badia”. Eu e Iacira nos deliciávamos com essa epifania.
No cemitério, rezamos durante muito tempo numa outra cova, que não era a dela. Anjos não têm corpos, portanto, não têm covas. Ela devia assistir ao ritual de algum ponto do paraíso.
Ele puxava o terço e nós respondíamos. Intercalava os mistérios dizendo:

— Dai, Senhor, à Neuza, o esplendor da luz perpétua.

Sem saber o que era, eu repetia, querendo também ir pra lá. Findo o terço, saíamos correndo, em debandada, para o carro. Mauriti seria a próxima parada.

Do Barro para Mauriti, a gente podia ir pela estrada nova, que estava sendo marcada pelo asfalto, ou pelo povoado de Mararupá, já rebatizado de São Félix, onde meus pais moraram após o casamento e onde nasceram meus dois primeiros irmãos: Conceição e Oscar.
Conceição homenageia a madrinha de papai, a santa mãe de Deus, Imaculada; Oscar, o pai dele. Eu sou Irapuan — literalmente ele, tirado das páginas florestais de Iracema, de Alencar. Amélia é um nome de princesa, mas herdado da bisavó dele; Iraneuza mistura, aos costumes, nos nomes do casal; Iacira é um nome que mainha, grávida, ouviu no rádio; e Neto é o nome do vovô, pai de mainha.

Se o inverno ainda não se anunciara, preferíamos ir por São Félix; mas, nesses casos, tínhamos vindo por Cuncas e passado primeiro no Barro, pra depois irmos ao Riachão, onde almoçávamos um capão cevado de chiqueiro guardado para a ocasião. No inverso, pegávamos a estrada para Milagres, pra chegar antes em Mauriti.

Sei da estrada todinha: as curvas, os açudes, o posto de gasolina e o chegar.
Sei que meu pai era luz pura, porque falava das Pedras à entrada de Mauriti, repetindo, por anos, a mesma história:
— O Exército chegou aqui e detonou tudo, etc., etc.

Mas ele contava com tanta potência literária que, nós, crianças, adorávamos; depois, adolescentes, virou gozação — e disso, um silêncio que o olhar traduzia. Hoje repete-se a cena evangélica contada pelo médico Lucas: “Eu vos digo que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão.”

Depois das Pedras, vinham as casas do tio Newton, nos Dantas, e da tia Ivone, na rua de chegar, próxima à padaria, que inovava a rua com o cheiro do pão. Ele, às vezes, parava; mas, de costume, preferia ir direto à praça da matriz, onde estavam a casa do vovô Oscar e a vizinha conjugada, a Pharmacia Miguel Couto.

E vai rolar a festa! Descíamos encabulados, sacudindo histórias à poeira no chão.
Eu corria pra falar com o primo Toinho — uma espécie de Tom Sawyer (hoje vejo que era uma versão mais fugaz de papai) — e com meu irmão Neto, para quem olhávamos saudosos, com vontade de levar de volta pra nossa casa.
A tia Iolanda sublimava o chegar com presepadas. Papai reservava para ela e o tio Caubi o amor fraterno no grau da cumplicidade.

Na cozinha, Maria Lôra recendia no tempero do almoço o pequi. Até na praça davam notícias pelo cheiro.
Uns copos de plástico com desenhos em relevo vinham cheios de leite com café bem adoçado, que a gente bebia comendo uma iguaria que só quero voltar a comer na ceia divina: o crespo, feito de goma, todo enroladinho.

A igreja tocava o relógio e nós íamos dividir as “covas” e a missa da Imaculada, no templo com aquela inscrição latina no frontspício: Ego sum Immaculata Conceptio — e uma imagem de uma santa de chapéu enorme num altar secundário à direita do devoto assistente.
E a casa era um sonho: tios que vinham de longe falavam de viagens e em outros idiomas; alguns, vestidos de padres e freiras, solenizavam a passagem — com exceção de Itaici, que se preservava menino para compartilhar restos de infância conosco.

O dono da casa eu pouco vi e apenas guardo lembranças remotas exigidas à recuperação por um vestíbulo ritualístico. Sei dele pela indumentária clássica, pela barba em cavanhaque e bigode, pelos olhos bem azuis e uma reserva de pouca conversa, muita leitura e dedicação aos serviços médico-farmacêuticos.
A dona era de uma simplicidade monástica e de um silêncio oposto às gargalhadas da tia Iolanda.
E nós fazíamos do corredor um portal à farmácia e ao muro, onde havia um criatório de passarinhos — com destaque para as burguesas — e um papagaio que falava pelos cotovelos.

Vencida a casa grande, íamos pra casa do tio Arari aperrear um macaco, que ficava preso numa corrente, e ver alguns fetos guardados em recipientes. Lá estava escrita uma frase na lateral do muro; ou, passando pela Bica e ao lado do cemitério, íamos para casa da tia Ivete, em cujo muro havia um sítio com mangas, goiabas e carnaúba.
E os dias felizes, por ser eternos, passam-se rapidamente. Papai anuncia a volta — pelo Horebe —, ao findar da tarde.

Monte Horebe, se não fosse a herança bíblica no topônimo, deveria ser Terra Branca. Preferiram a sarça ardente, entretanto. De lá, a gente vê Jatobá inteira até a parede de Boqueirão, nos limites com Cajazeiras; faz fronteira com Mauriti pelo distrito de Anauá (Espírito Santo). Na parte paraibana, a estrada tem o nome dele.

Quando a gente volta de Mauriti pelo Horebe, a estrada — que no começo é de cascalho —, do meio pro fim é de carro bom e motorista especialista em areia fina.
A terra é pra mandioca; por isso, a região serrana é boa de farinha, goma, tapioca, beiju e puba.

Voltando no final da tarde, a gente vem cansado, alguns dormindo. O carro diminui a velocidade e para mais vezes, para os atendimentos de costume. Os presentes recebidos dividem comigo o bagageiro. Eu vou me deliciando com pitombas, goiabas, cajás, bananas e esses produtos de mandioca.
De vez em quando, reconheço com a cabeça as laterais do carro.

Anauá está à vista e já é quase noite. Papai para debaixo da timbaúba, no centro do povoado, e vai tomar um café e acender um cigarro. Aquela árvore enorme era a memória folheada do lugar. Diziam, no Riachão, que Bosco foi morto lá. Mas cada folha, realmente, tem uma longa biblioteca imemorial.

Soube que, quando a derrubaram para fazer um mercado, os machados, inicialmente, seguros pelos cabos, resistiram ao corte e, quando cortaram, vapores saíram do tronco em desesperado voo ao céu, com formas vivas.
Por fim, quem inventou de queimar a lenha formada ouviu gargalhadas e choros entre sussurros quase inaudíveis.
Um banco de alpendre, numa casa de farinha ali perto — que se diz herdeiro dela, da árvore —, quando percutido, soa estranho, alguns hertz acima do limite conhecido.
Dizem que, à noite, o banco brilha mais que o sol — mas só vê o brilho quem ouve o som.

Papai volta ao carro e a viagem continua.
Chegando em Horebe, à entrada está o cemitério, onde, em um túmulo, um chantecler já se prepara para treinar o sol de um novo dia.
Outra parada, e compramos um biscoito de goma e leite — muito gostoso — numa banca do mercado, que fica perto da casa da esquina de seu Zé Basílio.
Descer a serra é um antigo medo de altura — quase acrofobia. A gente vê Jatobá na curva mais acentuada da serra, e o jeep se segura.
Chegamos à Barraginha, se não foi pela Alvorada de seu Aurélio Bala, passando pela “Vaje”.

Jatobá, bá, bah, bar da esquina…
Amanhã a vida volta à rotina.

Se nada disso tivesse acontecido, como hoje ou pouco antes de dois anos atrás, papai teria ido cedinho ao cemitério de Jatobá, depois de passar no mercado ou na rodoviária para tomar um café, fumar um cigarro e dividir histórias do dia em conversas aveludadas da madrugada.

No caminho do cemitério, passando pela rua da cadeia, ele ia conversando com muita gente: tio Vicente, na esquina do clube; Nô Ferreira, Raimundo dos Anjos, Zé Alves e Antônio Teodolino, na esquina do Grupo; seu Zé Herculano, já na dobra da rua, onde estavam as casas de seu Papata, seu Abidoral e, logo em seguida, Mané Ventura.

Depois era o mundo encantado do Alto da Boa Vista, onde moravam as grandes amigas de mainha, que compartilhavam com ele todo o caminho até o cemitério. Uma delas tem um nome lindo: Liberdade. As demais são Dona Chiquinha Fernandes, Dona Glória Numerado, Dona Preta, Dona Raimunda, Dona Alice, Dona Honora, Dona Expedita, Dona Adelina, Dona Licor, Dona Tica e Dona Helena.

Aí é só subir a ladeira com aquele pequeno lago à esquerda.
Depois do portão, veem-se os descansos dos “maiores”, os que guardam nosso passado e aguardam notícias do futuro. Lá, tudo é presente.

Ele vai conversando com todo mundo e soltando graças, receitas, fumaças e goles de café. É papai!
No começo, não tínhamos ninguém próximo no cemitério de Jatobá.
Hoje, papai descansa o corpo lá e a alma em Deus — no merecido esplendor da luz perpétua — junto com Bilinha, minha mãe adotiva, Paulinha, minha sobrinha, entre outros parentes.

Agora, lá estão as almas de Oscarzinho e Marah esperando a gente em móia. Esse universo é fora do tempo e fora do espaço.

Eu, como agora, estou deixando o meu terço de fé e suplicando uma graça plenária às almas de todos — especialmente às que ainda vivem no futuro do pretérito: o purgatório.

Hosana nas alturas!
Amém!

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