Ana Branca
A matéria é uma estação da luz, e a vida é a última tentativa de retorno ao movimento.
O vento soprava avisos de tempo, anunciando um meio-dia cansado. Traduzia-o o sol com aqueles raios atirados contra tudo o que opusesse a resistência da sombra. Mesmo assim, nem toda sombra era plasticamente íntegra. A aliança com o vento, que poderia ajudar tangendo o calor, entortava as pontas dos desenhos.
Em Jatobá, a essa hora, nem à igreja se oferece o repouso de misericórdia. A bem dizer: a igreja, da calçada da casa grande que a confronta, com aquela cor amarelo-sofrida, parece um pino do sol no chão fervendo. A gente fecha os olhos, deixando um tênue fio de observação para não ferver como a tela.
Subindo a rua até o cinema, um caudaloso rio de pedras busca, a montante, entregar as súplicas ao padroeiro.
Com mais alguns passos e uma desidratação suada, que o vento mal espera pela transpiração para beber, chega-se ao Coreto. Ana Palpita mora ali. Se o sol é Hélio, Ana é o feminino de sol. Ela não se incomoda com o calor, nem com aquelas pitadas de raios que o vento aplica sobre a pele dos viventes.
Um de nós sugeriu que Ana nunca morreu; havia se desintegrado em um meio-dia como aquele, e que era possível vê-la, na praça, saindo para a igreja, num solstício de verão que ocorresse àquela hora, mas em imagem pós-impressionista.
A forma de personalizá-la, extraindo-a da tela da seca, era pondo um copo de alumínio, com um pouco daquela fina areia branca, em cima do Coreto, até a primeira lua cheia, plenilúnio. Não sei quem aviou a receita, mas era possível tateá-la naquele vento quente.
Biblioteca de papai
Combinaram um sarau nas madrugadas,
naquela sala onde os livros do avô
repousavam as histórias no calor
que aquece e as torna ilustradas.
Ao primeiro a contar suas leituras
era dado o direito de vivê-las,
escolhendo como e quem podia sê-las
no universo real das criaturas.
Numa sessão que escolheram ler o Rosa,
nenhum deles voltou mais a se encontrar.
Eles estão, como certo, a procurar
a saída pra ‘voltar de novo’ à terra.
Sempre erram ou a fechadura emperra
numa frase que ainda resta explicar.
