L’Orea de Ouro
Gosto de passear no ‘Elétrico’ ou Funicular, quando estou em Lisboa.
Ely Janoville, o Maestro, meu filho, jura que o carro é sensível ao humor do motorneiro.
Imagino a cidade de João Pessoa resgatada para um tempo que eu não a conhecia.
Acabaram com o passado e não entregaram o futuro (em sua modernidade) prometido.
Fiz o meu passeio e ‘naveguei’ no fantástico mundo do Ponto de Cem Reis, nas narrativas de Bau Calça Velha.
Antes de adquirir o bilhete de viagem, convém que se saiba dessa versão da experiência do Motorneiro do L’Orea de Ouro, para Bau, o mais famoso bonde da cidade.
Os textos fazem parte do livro autobiográfico: Repúblicas.
L’Orea de Ouro I
A Curva do Bonde ou A Paralaxe do Grito
Obedecer ao pai, à mãe e aos motorneiros
Se a elipse é uma sequência de perspectivas que permite a observação de todas a partir de qualquer uma delas, a lei não se aplicava ao L’Orea de Ouro, onde compreender era uma tradição.
Algum arquiteto da anatomia humana teria concebido o desenho dos bancos do bonde, com aquelas tábuas levemente separadas, sugerindo um escape adiposo ou gasoso ou, quem sabe, um respiradouro.
Nos bancos sentavam com muito conforto e espaços de sobra até 2 pessoas. Uma terceira não incomodava, mas condicionava a que todas elas conduzissem nos colos seus pacotes cotidianos.
A lotação traduzia a população laboral, salvo visitantes e passeios eventuais, esses mais apropriados aos finais de semana. Os que viajavam em pé faziam por modismo, exibição ou para contemplar a paisagem, especialmente a que permitia o verde das Trincheiras, para onde Cruz das Armas tenta se encontrar com a Ilha do Bispo, se definindo em fronteiras no cemitério, depois do Matadouro. É a conformação da elipse dos trilhos do bonde.
Estrada de bonde tem isso de trilhos: o mesmo, eterno e repetido sentido para caminhar. Daí a irresignação do balanço de querer mudar a rota, saltando as letras do destino.
É desse balanço, também, que o bonde cria, com o tempo, uma linguagem nos ruídos. Entende-na o motorneiro. O primeiro deles, Seu Bidu, por ser o mais antigo e conhecido, fala essa língua.
De um desses diálogos, ‘ex machinal’, ele soube que no terceiro banco uma das tábuas começou a se afastar das demais, exatamente no ponto de inflexão horizontal da curva à esquerda, próxima à Escola de Enfermagem, para, na suposta reta seguinte, seccionar o bairro de Jaguaribe ao meio.
Intérprete e tradutor simultâneo, Seu Bidu gritava para que as pessoas sentadas no lado direito do bonde levantassem por um lapso de segundo, até que as tábuas, como as placas tectônicas da Terra, se acomodassem.
Pela tradição, independentemente do grito contumaz, os passageiros se levantavam para, logo em seguida, voltarem ao assento.
Aquele senhor, ricamente vestido, de tão estranho, parecia vendedor de tecidos ou de perfumes. Também pela valise que carregava, ele se revelava. Tanto era estranho que chamou à atenção de todos os passageiros. Era, por assim dizer, o inverso da elipse: o único ponto à visão de todos.
Deu nisso.
Por não se importar e até zombar, com o canto da boca, do grito do velho motorneiro, seguido em obediência pelos passageiros que se levantaram, dele só se ouviu um grito, com a resposta devida de Seu Bidu, já encaminhando o bonde ao mercado de Jaguaribe:
— Só na próxima curvaaaaaa!
Poucos sabem, para contar, o tamanho da dor, na escala Richter, que o reencontro das tábuas dava em beliscão em alguma parte glútea ou outras pouco reveladas.
O cheiro que aquele estranho passageiro exalava, após a próxima curva, quando saltou do bonde, não era dos seus perfumes.
L’Orea de Ouro II
O Lobo do Mar
“Thalassa! Thalassa!” — Xenofonte
Mar revolto. Poseidon em fúria.
Despertado de seu sonho eternal, o Gigante Adamastor não contesta as aparas epidérmicas das suas vagas desenhadas pela proa do navio empurrado às hélices dos motores: antes, talvez apenas, repudia o cedo com que ele, Seu Peixuxa, se faz visível à uma lua amada, adolescente de pós-ocaso.
O Deus é noivo na nave da igreja universal, desde que o tempo iniciou a contagem. Morar com a Lua no altar é o seu paraíso.
O que lhe incomoda no acordar é retornar dos sonhos, quando sai melado do mel dessa Lua ininterrupta, para o salgado das maresias. Mas ele sabe que o contraste lhe favorece o sabor do desejo e se submete à rotina.
No tombadilho, uma única alma habilita-se à testemunha, surpreendendo o Capitão naquela noite de perigosa tempestade.
Ao avistar o personagem confundido nas — e confundindo as — brumas com a expiação de um ‘boró’, que se conformava no canto da boca, equilibrando os lábios com um palito de fósforo na outra ponta, o comandante sentiu a necessidade do aprendiz, apesar dos seus quase 50 anos de mar e portos, que o puxavam à aposentadoria.
A pouca confiança no Imediato, de apenas 35 anos de ondas, incomodava a decisão.
Esperou a calmaria ou a placidez de um vento de terral, mas desenhou o semblante da testemunha contra a luz da Lua. À descida, aportado, ele o reconheceria.
A natureza só se exibe no fantástico.
Uma decisão ágil do Imediato tirou o comandante de seu roteiro acadêmico-literário, de tal sorte que o despertou encorajado à aula com aquele Velho Lobo do Mar. Também porque a responsabilidade foi compartilhada por um cochilo quase inexplicável de Poseidon.
Foi!
Personalizou no tato do olhar o que desenhava em penumbra, traído pela pouca velhice que enxergava naquele passageiro.
Entretanto, rápido como a curiosidade, ele tirou o quepe, ensarilhou as armas, dobrou a coluna, arrastando, nos moldes do consorte, a mão direita ao chão e proclamou:
— Salve! Digno Lobo do Mar! Dizes-me, com essa calma de garoa, quantos mares já enfrentastes? Quantos oceanos já singrastes!? Desde quando, com tão pouca idade, enfrentas as fúrias de Éolo e Poseidon!? Posso crer que no ventre materno, nos líquidos celestiais posteriores a Adão, tu já distinguias o perigo do aviso do aviso de perigo. Minta-me de monstros.
A resposta obedeceu às leis de Newton ‘absorvidas’ pelo mar, com a mesma intensidade da pergunta:
— Não! Eu nem sei nadar. É minha primeira viagem de navio. Desde menino, é verdade, acompanhei meu pai, a quem sucedi, como Motorneiro do L’Orea de Ouro, o bonde circular da Capital da Paraíba.
O retumbante silêncio do comandante atracou dele o velho marinheiro que tinha encarnado na vida, para uma aposentadoria de cartas e pesca na Ilha de Itaparica, na Bahia. Nem à cabine, conta-se, ele voltou mais.
Dizem que Joca de Bidu, nascido no Morro dos Malandros, na Torre, na Paraíba, era filho de Iansã, e com Iemanjá seriam testemunhas involuntárias do Mar, se o casamento houvesse sido realizado.
A viagem de férias para conhecer o Rio de Janeiro, embarcado no Ita, em Recife, correspondeu ao além da expectativa. Ressuscitou no 30º dia, na volta ao trabalho, para gritar a curva que o bonde fazia à esquerda, quando cortava ao meio o bairro de Jaguaribe, lá perto da Escola de Enfermagem.