A Pedra
02/04/2026

“Quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra”

Jesus Cristo

Pedro é, talvez, o mais humano dos discípulos. Não porque seja o melhor, mas porque é o mais exposto. Fala antes de compreender, promete antes de avaliar, reage antes de refletir. Não há nele cálculo nem reserva. Age — e, por isso mesmo, erra.

Pedro é senhor dos seus próprios erros novos. Aprende que o maior acerto é praticar um erro novo — e que o mais grave dos erros é o erro repetido. Até nos erros há pedagogia em Pedro. Que ninguém repita os seus erros. Cometa os próprios, mas nunca deixe de agir — com fé – como nos erros de Pedro.

Cristo não o escolhe apesar disso, mas por isso. Ao dizer “tu és Pedro”, não reconhece uma firmeza prévia, mas aponta um caminho: o de quem precisará atravessar a própria fragilidade para se tornar fundamento.

A trajetória de Pedro é feita desse contraste. É ele quem confessa com precisão — “tu és o Cristo” — e, logo em seguida, é corrigido. É ele quem pede para caminhar sobre as águas e afunda. É ele quem promete fidelidade absoluta e, poucas horas depois, nega conhecer aquele a quem dizia amar. Em Pedro, não há intervalo entre o acerto e o erro. Há intensidade.

Há, porém, uma cena reveladora. Durante a ceia, ao ouvir que um dos presentes trairia, Pedro não pergunta diretamente. Pede a João que o faça. João está reclinado sobre o peito de Jesus e, por essa proximidade, alcança o que Pedro não alcança. O mais ativo reconhece, ali, que não compreende tudo. E recorre a quem escuta.

Esse gesto diz muito. Pedro não é o que tudo sabe, nem o que tudo domina. É o que se adianta — e, quando necessário, depende. Sua força não está na autossuficiência, mas na disposição de permanecer mesmo sem entender completamente.

O ponto decisivo de sua história não é a promessa, mas a queda. A negação, seguida do olhar de Cristo e do choro, marca uma ruptura. A partir dali, Pedro deixa de ser apenas o homem do impulso e se torna alguém capaz de reconhecer o próprio limite. É essa consciência que o transforma.

Essa inversão — o erro como parte do caminho — aparece também em um poema meu: Simão, tu és Pedro.

D’Ampulheta de Estrelas

Simão, tu és Pedro

Senhor, para cumprir a tua palavra,

eu te negarei,

porque não poderemos morrer juntos,

sem que eu afirme

tudo o que dissestes à salvação.

Ressuscita-me, Senhor!

A ideia não é justificar a negação, mas compreendê-la: há verdades que não se aprendem pela afirmação, mas pela queda. Pedro não nega por ausência de fé, mas porque ainda não suporta plenamente aquilo que afirma.

Essa mesma figura aparece, em outro registro, na canção de Raul Seixas. Ali, Pedro é o homem comum, repetido, preso a uma rotina que não questiona, carregando uma solidão que não sabe nomear. Trabalha, repete, suporta. E, no fundo, vive sem compreender inteiramente o próprio caminho. “Pedro, onde cê vai eu também vou” não é apenas companhia; é reconhecimento. Quem fala sabe que não está fora de Pedro — está nele.

Entre o apóstolo e o homem comum não há ruptura. Há continuidade. O Pedro do Evangelho é o mesmo que atravessa o cotidiano: o que fala demais, promete demais, erra demais — e, ainda assim, segue.

Por isso, Pedro sustenta. Não por ser firme por natureza, mas porque atravessou o erro e não se afastou. Sua autoridade não nasce da perfeição, mas da experiência de ter falhado e permanecido.

Se há uma razão para que lhe tenha sido confiado o papel de fundamento, não está na ausência de falhas, mas na capacidade de não fugir delas. Pedro não é o homem que não cai. É o que, tendo caído, permanece.

Depois da queda, vem o que realmente importa. Pedro começa a levantar outros. À porta do Templo, diante de um homem que nunca andou, não oferece explicação nem consolo: oferece movimento. Não tem ouro nem prata — mas tem o suficiente para dizer “levanta-te”. E o homem se levanta. Mais adiante, os doentes são colocados no caminho, e até a sua sombra passa a curar. Um paralítico se ergue. Uma mulher morta volta à vida.

Não é poder pessoal. Pedro não substitui Cristo. Continua Cristo.

O homem que não sustentou a própria palavra passa a sustentar o outro. O que negou torna-se aquele por meio de quem outros se levantam. Não porque tenha deixado de falhar, mas porque atravessou a falha e permaneceu.

Pedro não é a pedra antes da queda – é depois. E talvez seja essa a sua verdade mais dura e mais próxima: a pedra não é o que não se quebra, sequer o obstáculo ao caminho— é o que, mesmo quebrado, não deixa de sustentar.

Com o tempo, a pedra angular – do alicerce que Cristo afirmou, tornou-se a coluna da igreja.

Seja Pedro!

Seja pedra!

Seja a sua coluna!

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