*Por Higor Maffei Bellini
A mulher brasileira é genial, e todos nós sabemos disso. E essa genialidade aparece nos mais diversos espaços; em 11 de setembro de 2026, ela apareceu em um lance de futebol, na última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo Feminina Sub-20, disputada na Polônia.
O pênalti do Brasil contra a Inglaterra não foi apenas um gol importante na busca pela virada. O que as meninas fizeram foi uma demonstração de inteligência, percepção e confiança entre elas. Não é preciso chamar de malandragem, palavra que por vezes carrega uma carga negativa. Foi genialidade: elas entenderam o que a goleira adversária tentava fazer e encontraram uma forma inteiramente regular de não lhe entregar a vantagem.
Quando a penalidade foi marcada, Brendha pegou a bola e se colocou como se fosse a cobradora. A goleira inglesa, Katie Cox, fez o que hoje é comum no futebol: foi até a garrafa que mantinha perto do gol, onde havia anotações sobre as características das batedoras brasileiras. Não há nada de irregular nisso. É estudo, preparação e leitura de adversárias.
O Brasil, porém, leu a leitura inglesa. Já no último momento, Brendha entregou a bola a Clarinha. A goleira não teve mais tempo de procurar a nova cobradora, entender seu hábito de batida ou escolher o canto a partir daquelas informações. Clarinha foi para a bola e, com uma cavadinha de enorme tranquilidade, empatou a partida. Depois, Gisele marcou o gol da virada.
O lance é bonito porque une improviso, inteligência e coragem. Não foi uma jogada tirada do nada. Houve percepção do que a goleira fazia, comunicação entre as atletas e segurança para alterar a cobrança sob pressão, em um jogo de Copa do Mundo. A regra permitia a mudança: antes de a bola entrar em jogo, não existe obrigação de que a atleta que a segurou seja necessariamente aquela que fará a cobrança.
Há, nesse episódio, uma característica muito brasileira do futebol. A genialidade não está apenas no drible ou no gol impossível. Está em enxergar uma pequena brecha dentro de uma situação aparentemente fechada. A Inglaterra havia se preparado para conhecer as brasileiras. As brasileiras perceberam que também podiam usar essa preparação a seu favor.
Por muito tempo, o futebol feminino brasileiro foi contado apenas a partir da carência: menos investimento, menos calendário, menos visibilidade e menos estrutura. Tudo isso continua a exigir cobrança séria. Mas reduzir as atletas a essa falta também impede que se veja o que elas produzem quando têm espaço para jogar, competir e pensar.
Clarinha não marcou somente um pênalti. Ela mostrou personalidade em um momento decisivo, assim como Brendha mostrou desprendimento ao abrir mão da cobrança em benefício da equipe. É uma imagem muito forte de um grupo que compreende que talento individual e inteligência coletiva não se excluem.
O Brasil venceu, terminou a fase de grupos na liderança e levou consigo algo que vale mais do que o resultado de uma rodada: a prova de que a atleta brasileira continua encontrando caminhos onde muita gente só enxerga obstáculo.
