A polêmica envolvendo a nova campanha publicitária das sandálias Havaianas ganhou as redes sociais e rapidamente foi capturada pelo debate ideológico. O vídeo estrelado pela atriz Fernanda Torres, no qual ela diz não desejar que as pessoas “comecem 2026 com o pé direito, mas com os dois”, foi interpretado por setores da direita como provocação política e tentativa de “lacração”. A partir daí, o que era uma peça publicitária virou munição para boicotes, manifestações parlamentares e disputas narrativas que pouco têm a ver com marketing — e muito com economia, empregos e responsabilidade pública.
O primeiro impacto concreto da controvérsia veio do mercado financeiro. A Alpargatas, controladora da marca Havaianas, registrou queda nas ações na bolsa brasileira, com perda estimada em cerca de 200 milhões de reais em valor de mercado. Mesmo ainda avaliada em aproximadamente 7,3 bilhões de reais, a empresa vinha de uma sequência positiva: nos últimos 12 meses, os papéis haviam acumulado alta de cerca de 84%. A reação do mercado mostra que, independentemente da interpretação política, crises de imagem têm efeitos reais.
Campina Grande na mira
Enquanto o debate fervia nas redes, Campina Grande entrou no centro da história. E não por acaso. Foi dali que partiu uma das manifestações mais radicais contra a marca. O deputado estadual Sargento Neto publicou um vídeo rasgando um par de Havaianas com uma faca, defendendo boicote à empresa por discordar da campanha estrelada por Fernanda Torres. No discurso, a propaganda seria um ataque à direita brasileira.
Quase simultaneamente, outro parlamentar da mesma cidade, o deputado federal Romero Rodrigues, fez o movimento oposto. Saiu em defesa da Alpargatas, ressaltando a importância da empresa para a economia local e lembrando que milhares de famílias dependem diretamente da fábrica instalada em Campina Grande. Não foi apenas uma divergência política entre dois deputados. Foi o retrato de um conflito que expõe contradições profundas.
Campina Grande abriga a maior fábrica de Havaianas do mundo. A unidade, inaugurada em 1982, é a base histórica da operação da Alpargatas no Brasil e no exterior. Hoje, a empresa mantém duas grandes plantas industriais na Paraíba: a unidade “mãe”, em Campina Grande, e outra em Santa Rita, na região metropolitana de João Pessoa. Em 2023, a companhia inaugurou em Campina Grande um dos seus maiores e mais modernos centros de distribuição, com capacidade para armazenar cerca de 39 milhões de pares de sandálias.
Números & números
Os números ajudam a dimensionar o peso dessa estrutura. As unidades da Alpargatas na Paraíba empregam diretamente entre 7 mil e 8 mil trabalhadores. Considerando atividades subsidiárias, logística e serviços associados, esse número se aproxima ou até ultrapassa 9 mil postos de trabalho. Em um cenário mais amplo, mais de 70% da força de trabalho global da empresa está concentrada no estado. Ou seja, qualquer campanha organizada de boicote tem potencial direto de afetar o emprego e a renda de milhares de famílias paraibanas.
Há ainda um aspecto que passa despercebido no calor do embate ideológico. A campanha com Fernanda Torres não é a primeira vez que a Havaianas brinca com símbolos, superstições ou expressões populares. Em 2014, por exemplo, a marca lançou uma ação publicitária em que associava o “pé esquerdo” ao azar, explorando de forma bem-humorada a rivalidade entre Brasil e Argentina. Na ocasião, não houve reação estridente da esquerda nem acusações de preconceito simbólico. O contraste ajuda a entender que o problema atual não está apenas na peça publicitária, mas no ambiente político inflamado que transforma qualquer mensagem em disputa.
O caso revela um paradoxo incômodo. Ao mesmo tempo em que setores da direita defendem a economia, o emprego e a iniciativa privada, parte dessa mesma base passa a atacar uma das maiores empregadoras do Nordeste por causa de uma interpretação subjetiva de um slogan publicitário. Quando esse ataque parte de representantes eleitos de uma cidade que abriga a principal fábrica da empresa, o gesto deixa de ser simbólico e passa a ser concreto.
Impacto social
A discussão sobre a campanha pode e deve existir. Críticas à publicidade fazem parte do jogo democrático e do mercado. O que chama atenção é quando o debate ignora deliberadamente o impacto social e econômico das palavras de ordem lançadas nas redes. Em Campina Grande, a Havaianas não é apenas uma marca. É salário no fim do mês, é arrecadação, é desenvolvimento regional e é uma história de mais de quatro décadas.
No fim das contas, a pergunta que fica vai além de direita ou esquerda, de lacração ou boicote. Até que ponto a disputa política pode brincar com símbolos sem medir as consequências reais? E quem paga a conta quando uma sandália vira arma ideológica?