O leilão da Cagepa, vencido nesta sexta-feira (15) pelo grupo espanhol Acciona, desencadeou uma avalanche de críticas políticas na Paraíba e abriu um foco de desgaste para o governador Lucas Ribeiro (PP). Enquanto o governo tenta vender a ideia de modernização e eficiência através de uma Parceria Público-Privada (PPP), adversários de diferentes correntes ideológicas passaram o dia acusando o Estado de promover uma privatização disfarçada do saneamento público.
O contrato prevê investimentos estimados em R$ 3 bilhões ao longo de 25 anos e envolve os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário em 85 municípios paraibanos. A definição do leilão provocou reação imediata da oposição e até de aliados históricos do próprio governo.
O prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (PP), foi um dos mais duros. Em postagem nas redes sociais, afirmou que o governo “não escuta o povo” e criticou a condução do processo.
“Sempre fui contra essa ação, porque água é um direito do povo, não um negócio”, escreveu. Cícero também reclamou da falta de debate público, disse que tudo foi feito “às pressas” e citou denúncias de corrupção envolvendo a empresa espanhola vencedora.
O senador Efraim Filho (PL), pré-candidato ao Governo da Paraíba, também elevou o tom. Segundo ele, o leilão ocorreu “na calada da noite”, surpreendendo até setores políticos. Efraim questionou a participação de apenas uma empresa e afirmou que a água “não pode virar moeda de troca”.
As críticas vieram ainda do ex-governador Ricardo Coutinho, que chamou o processo de “extremamente grave” e acusou o governo de entregar gradualmente o saneamento à iniciativa privada.
“Água e saneamento não podem ser tratados apenas como negócio”, declarou Ricardo, afirmando que o governo começou justamente pela área mais lucrativa do sistema.
Já o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB) afirmou que o leilão “cheira a acordos mal feitos” e criticou o alcance da PPP, alegando que parte significativa dos municípios continuará desassistida.
Lucas Ribeiro defende a PPP
Diante da pressão, Lucas Ribeiro saiu pessoalmente em defesa do projeto. O governador afirmou que a PPP vai ampliar a cobertura do saneamento, reduzir a poluição em rios e praias e modernizar o sistema.
“Hoje a Paraíba dá mais um passo importante para garantir saneamento chegando onde muita gente esperou por tanto tempo”, afirmou.
O presidente da Cagepa, Marcus Vinícius Fernandes Neves, também reagiu às críticas e tentou desmontar a narrativa de privatização. Segundo ele, o modelo adotado já existe em estados governados por partidos de diferentes espectros ideológicos, incluindo PT, PSB e partidos de direita.
“A Cagepa não foi vendida, a Cagepa não foi privatizada”, afirmou. Segundo Marcus Vinícius, a estatal continuará existindo normalmente e mantendo o relacionamento com os consumidores, enquanto a Acciona atuará apenas na prestação de serviços dentro da PPP.
Nos bastidores políticos, porém, a avaliação já é de que o tema deve se transformar em uma das grandes trincheiras da disputa eleitoral de 2026. A oposição encontrou um discurso em comum contra o governo Lucas Ribeiro: a ideia de que o Estado abriu as portas para uma privatização do saneamento, mesmo negando oficialmente essa definição.
E as críticas, vindas de todos os lados, mostram que o bombardeio político está apenas começando.
