Novos documentos e mensagens revelados pelo site The Intercept Brasil colocam o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, no centro da estrutura de produção e financiamento do filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O projeto, inicialmente chamado “O Capitão do Povo” e posteriormente rebatizado de “Dark Horse”, teria contado com participação direta de Eduardo em decisões estratégicas e financeiras, segundo contratos, minutas e conversas obtidas pela reportagem.
De acordo com os documentos divulgados pelo Intercept, Eduardo aparece formalmente como produtor-executivo da obra ao lado do deputado Mario Frias, também do PL paulista, e da produtora norte-americana GoUp Entertainment. O contrato estabelece que os responsáveis pela produção atuariam conjuntamente em tarefas como captação de recursos, contato com investidores, obtenção de incentivos fiscais, patrocínios e definição de estratégias financeiras do longa.
O material divulgado contradiz declarações feitas por Eduardo Bolsonaro nas redes sociais, nas quais ele afirmou ter apenas autorizado o uso de sua imagem no projeto, sem exercer funções administrativas ou de gestão. O contrato, porém, atribui aos produtores-executivos participação ativa nas decisões relacionadas ao orçamento e à busca de financiamento.
Mensagens obtidas pelo Intercept também indicam atuação direta de Eduardo nas discussões sobre envio de recursos aos Estados Unidos. Em uma conversa encaminhada ao banqueiro Daniel Vorcaro, Eduardo sugere que os valores fossem remetidos rapidamente ao exterior para evitar dificuldades cambiais e atrasos em transferências internacionais.
Segundo a reportagem, o empresário Thiago Miranda, ligado ao Portal Leo Dias, teria atuado como intermediário entre Vorcaro, integrantes da família Bolsonaro e Mario Frias nas negociações envolvendo o financiamento do filme. Miranda afirmou ao Intercept que não participou da produção nem da gestão financeira da obra, limitando-se a aproximar investidores dos responsáveis pelo projeto.
Outra minuta de contrato, datada de fevereiro de 2024, descreve Eduardo Bolsonaro como “financiador” parcial do filme e prevê autorização para utilização de recursos investidos por ele na produção. Não há confirmação de que esse aditivo tenha sido efetivamente assinado, mas o documento reforça a vinculação do parlamentar à estrutura financeira do projeto.
A GoUp Entertainment, produtora citada nos contratos, é sediada na Flórida e tem entre os sócios a empresária Karina Ferreira da Gama. O nome dela já havia surgido em investigações envolvendo contratos milionários de Wi-Fi público na Prefeitura de São Paulo, atualmente analisados pelo Ministério Público.
O Intercept também revelou anteriormente que o senador Flávio Bolsonaro teria articulado junto a Daniel Vorcaro o financiamento da produção cinematográfica. Segundo a apuração, o banqueiro teria prometido cerca de US$ 24 milhões para o projeto, equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época. Pelo menos R$ 61 milhões teriam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025.
A reportagem afirma ainda que a Polícia Federal investiga se parte desses recursos teria sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Parte do dinheiro teria sido direcionada a fundos ligados a aliados do deputado, incluindo o advogado responsável por seu processo imigratório em território norte-americano.
Até a publicação da reportagem original, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Daniel Vorcaro e os representantes da GoUp Entertainment não haviam respondido aos questionamentos enviados pelo Intercept. O espaço permanece aberto para manifestações.
