Dois meses após a entrada em vigor do tarifão de 50% imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o impacto na economia brasileira foi menor do que se imaginava. A pauta de exportações afetada é restrita a menos de um terço dos produtos, sendo que as maiores perdas se concentraram em café, carne e açúcar. É o que mostra um levantamento da Câmara Americana de Comércio Brasil-EUA (Amcham) com base em dados do comércio bilateral de 2024, analisados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Trata-se de uma reportagem da edição impressa do jornal O Globo, publicada na manchete de primeira página desta segunda-feira.
O tamanho do estrago
Trump estabeleceu imposto de importação de 50% sobre produtos brasileiros que, em sua maioria, já pagavam tarifas menores. Mas a medida atingiu apenas 25,9% da pauta de exportações. No total, 74,1% das vendas externas ao mercado americano continuaram isentas de sobretaxa.
O sobrepreço afetou mais fortemente produtos como café, carne bovina, açúcar, ferro fundido e suco de laranja — segmentos que agora buscam alternativas de escoamento, principalmente na Europa e na Ásia.
De acordo com o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), cerca de 40% da exportação brasileira de café tinha como destino os EUA. A sobretaxa de 50% levou à queda imediata de embarques. “Isso nos forçou a acelerar negociações com países da Europa e da Ásia, e a expandir mercados na África e no Oriente Médio”, afirmou o diretor técnico da entidade, Marcos Matos.
Setor sofre, mas se reorganiza
Entre os setores mais atingidos estão o sucroalcooleiro e o de proteína animal. O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Fábio Paranhos, destacou que “o impacto foi duro, mas nos obrigou a diversificar”. Segundo ele, novas parcerias comerciais com China, Indonésia e Coreia do Sul estão sendo ampliadas.
A Amcham calcula que, em agosto, as exportações de produtos tarifados caíram 26,9% em comparação com o mesmo mês de 2024. Em compensação, itens sem sobretaxa cresceram 8,7%, o que amenizou o saldo total.
Reação regional
Na Região Nordeste, a medida foi sentida com mais intensidade entre exportadores de suco de laranja, ferro fundido e açúcar. Já o Sul e o Sudeste registraram impacto maior nas exportações de carnes e café.
Mesmo assim, analistas do setor veem um “efeito colateral positivo”: a busca por novos mercados e a reindustrialização de cadeias produtivas voltadas ao consumo interno.
‘Mais danoso para os EUA’
Na avaliação de empresários e economistas ouvidos por O Globo, o efeito da medida acabou sendo mais prejudicial aos próprios americanos. “Foi um tiro no pé. O aumento de 50% na tarifa do café, por exemplo, encareceu o produto para o consumidor americano”, disse a advogada e consultora Brígida Advócacy, especialista em comércio exterior.
O consultor de agronegócios Fider Kubitzka completa: “Os EUA dependem fortemente de importações brasileiras em setores estratégicos, e isso torna o impacto mais simbólico do que prático.”
Impacto em empresas
Empresas brasileiras de médio porte estão reagindo com estratégias diferentes.
- Café: exportadores buscam novos clientes na Europa e no Oriente Médio.
- Indústria: fábricas de equipamentos esportivos, como a Randon, adotaram crédito emergencial para reduzir impactos e evitar estoques excessivos.
- Alimentos: produtores de carne e açúcar ampliaram vendas para o mercado interno e o atacado, aproveitando o câmbio favorável e a demanda aquecida.
O Ministério do Desenvolvimento estima que o Brasil deixará de exportar cerca de US$ 10 bilhões para os EUA em 2025, mas parte dessa perda será compensada pela abertura de novos mercados em países asiáticos e africanos.