Ruge, ruge, Leão Velho!
Ruge forte assim(…) (aqui o rasgão no papel comeu a palavra).
Antes de prosseguir nos versos seguintes, faço um esforço de memória para encontrar a expressão insubstituível e absoluta que completa o sentido e o ritmo do verso.
Era um pedaço de jornal isolado, sujo, trazido pelo vento para o cisco da oficina. Encalhou ao pé do batente onde eu me sentara, borboleteando a cada sopro, desviando-me a atenção do trabalho que o mecânico realizava para recolocar o dínamo que consertava.
O vento fazia o papel tremular no chão, desviando-me o interesse da pergunta que o mecânico me fazia. Respondi que sim, sem saber de que se tratava:
— Sim, pode trocar.
Tomei o papel, bati-lhe a poeira, e lá estavam, em menos de um palmo, como a querer ressuscitar do pó da rua, duas estrofes inteiras de um poema da minha particular intimidade, o Itinerário Lírico, de Jomar Souto.
O rasgão passara de fininho na primeira linha e tragara, na segunda, a última palavra, exatamente a tônica do verso:
Ruge, ruge, Leão Velho!
Ruge forte assim(…)
Que por causa do silêncio
de muitos leões cansados
e certos mais de latão,
lá no Ponto de Cem Réis,
de batina remendada,
pedindo esmola pra os pobres
Padre Zé estende a mão.
Fora do seu ambiente, vindo por vias imprevistas, querendo entoar-se em meio a ruídos e batidas fiches, grosseiras e enervantes, nunca a expressão poética ganhou tanta evidência. Lá dentro o homem lixava um induzido, recolocava-o com pancadas fortes e agudas no interior do dínamo, e cá fora, arriado no batente, eu via num papel rasgado saído do cisco aquilo que Herbert Read chamava “a imagem exterior de coisas interiores”. O silêncio dos leões cansados fazia Padre Zé estender as mãos.
E mandava o leão rugir, um leão de cobre ou de zinco, que na força do poeta se transformava, de símbolo morto em símbolo revolucionário.
Vou consertar o carro e um pedaço jogado de jornal me deixa perturbado, obriga-me a pensar, refletir, imaginar coisas externas ao ritmo e à música do verso de Jomar. O poeta cumpria o seu
papel: “Dar uma forma palpável ao que está dentro, representá-lo de maneira tal que o vemos como a imagem externa de coisas interiores”.
Nisso reaparece o mecânico: “O dínamo está pronto, troquei o induzido”.
— Mas quem mandou trocar?
— O senhor …
E levou-me toda a disponibilidade.
Os alemães têm razão: os poetas vieram ao mundo para perturbar a ordem.