João Pessoa, quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Registros de viagem    
01/10/2026

Recebi de Gonzaga Rodrigues um livreto com narrativas de viagem empreendidas pelo potiguar Joaquim Ignácio de Carvalho Filho, do ano de 1924, quando este, visitando os amigos João Suassuna, Júlio Lyra e Solon de Lucena – sertanejo e brejeiros -, percorreu cidades do Brejo, e, ao final, escreveu suas impressões sobre a paisagem rural e as marcas do progresso econômico da região, baseado na cana-de-açúcar, na produção de algodão e agave, do café e no cultivo do feijão.

Nas páginas de “A União”, Ramalho Leite, confrade do IHGP e guia dos anseios da região do Brejo, mais uma vez recorda a presença deste potiguar pelas terras da Parahyba, abrindo-nos a mente e o coração para os registros da história, de quase cem anos depois. Com isso, Ramalho faz o registro de uma época caracterizada pelo poder dos coronéis, de mudanças políticas e econômicas, retirando das páginas adormecidas de antigas publicações ou recordando conversas com o povo de Bananeiras e Borborema, fatos que ajudam a reconstruir o mapa das raízes da terra onde outrora construímos sonhos. 

Neste pequeno opúsculo de Joaquim Ignácio encontramos preciosas informações, detalhes que trazem a marca de um observador atento aos componentes de cada lugar visitado. Para não me alongar, registro as lembranças deste potiguar amigo de João Suassuna, de Júlio Lyra e de Solon de Lucena referentes ao que observou na antiga povoação de Arara, então localizada no município de Serraria.

Nas terras onde padre Ibiapina deixou as marcas de seus pés, o visitante se deteve na obra de um silo destinado a guardar mantimentos, detalhando o formato, citando nome dos idealizadores e pedreiro que colocou tijolos sobre tijolos, ressaltando a importância econômica da obra para o lugar, à época grande produtora de feijão. Ainda hoje este silo, que faz lembrar os antigos silos egípcios narrados nas histórias bíblicas, exibe no alto uma arara feita de folha-de-frande, símbolo da cidade.  

 Muitas coisas evoluíram e estão diferentes. O registro da história dos tempos presentes está nas nuvens, algo imaginável. O apontamento no papel, a fotografia impressa que fica palpável, ao alcance dos olhos, este não desaparecerá. A carta em garatujas que registra nossos anseios, dores e situações, às vezes contando o que se passava na família ou no lugar onde residíamos, esta sim, fica como o registro fiel do sentimento humano, como são imensamente humanas as palavras escritas por Joaquim Ignácio. O que eu penso: a forma impressa no papel é mais confiável do que a infraestrutura digital, que não guarda a emoção do manuseio. 

Como bem recordou Ramalho, com o material recolhido durante a viagem, este amigo natural do Rio Grande do Norte prestou inestimável serviço para a história de algumas cidades da Paraíba. No seu Estado, foi governador, deputado estadual, prefeito de Natal e senador, também assumiu as funções de promotor, juiz e desembargador nas terras potiguares.  

Mesmo que Ramalho tenha apenas comentado o que Joaquim Ignácio observou na Capital da Parahyba, ressaltando que este ficou abismado com a imponência de certos prédios e o fervor da acolhida de seus habitantes, em outras crônicas o confrade do IHGP ressaltou o olhar desse pela paisagem do Brejo. Oportuna lembrança, porque nos remete a um passado quando o registro nas páginas de jornal ganhava dimensão incomensurável.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).