Passai a manhã imaginando uma frase que descrevesse o trabalho missionário de Dom Manoel Delson Pedreira da Cruz, arcebispo metropolita da Arquidiocese da Paraíba, que completou 20 anos de sagração episcopal.
Penso que este religioso foi buscar as respostas às inquietantes dores da alma no silêncio da clausura, iniciando, desde então, a sua revolução espiritual. Após esse encontro íntimo com Deus, surgiu o chamado para sacerdócio.
Quando adolescente, o jovem Manoel, residindo com os seus pais, certamente após os primeiros contatos com a Palavra de Jesus, inicialmente em família, deve ter repetido as palavras do profeta Jeremias (20:7): “Seduziste-me, Senhor! Eu me deixei seduzir”.
Cedo acolhendo a proposta missionária alicerçada na Palavra de Deus, que depois ajuntou aos ensinamentos de São Francisco de Assis, Dom Manoel Delson pontilhou a estrada de sua vida pelos caminhos apontados por Jesus Cristo, bem antes de sua escolha para o sacerdócio. Acredito que ele conectou a caridade franciscana ao silêncio de São João da Cruz para formar a mística da escuta e da ação apostólica, que executa desde a juventude.
O místico da caridade Francisco de Assis deu uma lição de heroísmo interior quando se despojou de tudo para servir ao próximo e a Igreja. Assim procede quem se deixar seduzir pelo Senhor. “Seduziste-me, Senhor!”, nesse estágio é o Espírito Santo quem fala ao escolhido, e este pronuncia a resposta porque sai do coração, “eu me deixei seduzir!”.
Na mocidade, Manoel Delson decidiu pela renovação espiritual no monastério, baseada nos gestos franciscanos e, quando foi chamado para servir como presbítero, revestido da couraça profética, não titubou em se colocar a serviço do Reino de Deus com espontânea “simetria evangélica, invisível aos homens”.
Desde cedo, olhava para a luminosidade e a grandeza da Eucaristia. Nunca se afastou do caminho escolhido, seja como presbítero e, com maior fervor, como epíscopo.
A abundância dos ensinamentos destes dois santos – Francisco de Assis e João da Cruz -, suponho, foram determinantes na escolha de sua vocação, que, desde os primeiros momentos, teve a constância da iluminação do Espírito Santo. Afinal, principalmente a partir de Jesus, todos os santos se reputaram peregrinos e necessitados da bondade de Deus. Olhando para a vida missionário de Francisco, Dom Delson encontrou as sólidas razões para se tornar um obreiro do Senhor.
O rei Luiz IX da França (1215-1270), apaixonou-se pelas obras de São Francisco, inspiradas nos ensinamentos evangélicos, e, com sua autoridade de monarca, possibilitou ao povo francês a convivência pacífica e harmoniosa por um longo período. Os gestos de ambos – Francisco de Assis e rei Luiz IX – aumentaram a fé onde chegaram suas vozes.
Nos dias atuais, há necessidade de olhar esses modelos de práticas cristãs que, suponho, Dom Delson soube observar e praticar. Observa-se gestos devocionais de vida de oração por parte dele, como um sol a iluminar os dias do rebanho ao seu cuidado.
Dom Helder Câmara também foi profundamente tocado por São Francisco, que tinha o olhar profundo para os pobres enquanto semeava a palavra. Saindo da casa de oração para os grotões onde viviam os desvalidos.
Sabia que, para o bom pastor, se fez necessário estar próximo do Senhor e reconhecer a força espiritual do lenho da cruz e da coroa de espinhos que Jesus conduz.
A vida recomeça quando se descobre novas atmosferas dentro da comunidade. Em vinte anos de pastoreio como epíscopo, oito dos quais entre nós, observava-se, no seu testemunho espiritual uma busca pela unidade de bem comum, servindo com um coração extremoso os necessitados do pão e da palavra.
A vida e os sonhos removam os passos, abrem veredas. A oração atribuída a São Francisco de Assis se tornou a trilha da caminhada espiritual de Dom Manoel Delson, muito antes de passar a sacramentar a hóstia. Na inquietação da alma, os sussurros do Espírito de Deus aquecem seus momentos de ansiedade.
Há homens que constroem suas histórias sem a necessidade de adjetivos em excessos para mostrar os seus atributos pessoais e valores espirituais.
Seduziste, Senhor!
24/09/2026
sobre
José Nunes
José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).