“A verdade não se impacienta, porque é eterna.”
Ruy Barbosa
Sim, é certo: os caminhos da verdade são retos e claros; ligam mais rapidamente a liberdade e o fim. O tempo do honesto é o sempre, incondicional. É preciso fé para ser caminhante. Crer no lugar aonde se vai chegar é propulsão suficiente para chegar.
Conheci Carlos Coelho de Miranda Freire como o “rigoroso” professor de Introdução ao Estudo do Direito, da Universidade da Paraíba. Imaginando tratar-se de uma disciplina inicial, sem relevo, ia às aulas quando a folga de outros dois cursos me permitia; fiquei reprovado por faltas e por notas baixas.
A reprovação me levou a mudar de professor; aquele rigor era incompreensível para um “estudante engajado”. Voltei à disciplina em outro semestre e em outro nível, reencontrando o Sr. Carlos Coelho. Adquiri toda a bibliografia indicada e me preparei para as aulas e os testes. Descobri o mundo do Direito ali, naqueles momentos. Tudo o que se seguiu foi apenas consequência. Tornei-me profissional aprendendo processo, mas Direito aprendi em Introdução, com aquelas aulas.
O professor mostrou-se-me diferente. Doutor, poliglota e honesto, acadêmica e pessoalmente, Carlos Coelho era provocado por aqueles que viviam “de fama”: assim mesmo, com esse cacófato. Ele chegava à sala de aula às sete, quando a aula começava às sete, saindo às nove, se a aula terminava às nove. Faltasse energia, ele continuava com uma lanterna que sempre trazia consigo. Nas greves, obedecia à maioria, com certa reserva, mas somente deixava de ir ao trabalho se não houvesse alunos e outros professores. Explicava sua aula até esgotar o assunto e a paciência. Seus testes de conhecimentos eram fantásticos: três ou quatro perguntas simples, seguidas por uma redação. Daí sua fama de chato e rigoroso.
Coordenador do curso de Direito, estabeleceu regras de controle administrativo e acadêmico, tanto para professores quanto para alunos. Como resultado, foi apeado do cargo, manu militari, numa cena de ridicularia que até hoje me faz arrependido de ter participado daquela ópera-bufa.
A sua fama de carismático religioso, numa longa tradição familiar — que lhe fez herdar do tio, bispo de Olinda e Recife, o nome —, era álibi para críticas oportunistas na dicotomia ideológica folhetinesca. Nem sua fé fazia mal a ninguém, nem a esquerda ateísta tinha, ou tem, alternativas para os problemas do mundo. Como toda a verdade, Carlos Coelho gerou lendas e mais lendas: a da prova do Itamaraty, “quando não aceitou a ideia de explodir, em nome da pátria, um avião cheio de crianças”, e a rejeição ao uso da calça jeans são exemplares.
Encontrei-me com ele, já casado, quando ia para São Paulo com a esposa. Conversamos um pouco e renovamos a crença nas instituições e nas pessoas.
Conta-se que ele devolveu à União parte de seu salário porque recebera, durante um período de greve, um valor integral, a maior, quando já havia pedido redução da carga horária, por ter passado no concurso de juiz do Trabalho.
Como juiz, trouxe à jurisdição os requisitos essenciais ao desempenho da magistratura: honestidade e justiça. Aborrecia a tantos que pensavam que podiam fazer dele o que costumeiramente faziam na administração do Judiciário do Trabalho — uma época que, por esforço comum, foi sendo apagada da Justiça obreira paraibana. Fui assessor jurídico da CPI do Judiciário, instalada pelo Senado Federal, e constatei os absurdos ocorridos. A mudança começou faz tempo, e Carlos Coelho é a prova sublime desse fato. O Tribunal somente comportaria o ilustre professor se mudasse sua antiga feição.
Vi Carlos Coelho de Miranda Freire chegar ao Tribunal Regional do Trabalho da Paraíba em tempos de democracia, sem depender da alça política, apesar de pertencer a uma reconhecida família. Vi-o alcançar a presidência daquela Corte e, depois de mais de três décadas de magistratura, aposentar-se.
E tudo isso aconteceu enquanto a sociedade continuava a questionar a honorabilidade de seus representantes nos três Poderes e a assistir à magistratura sair de sua redoma sacratíssima para se imiscuir em assuntos alheios às suas funções.
O tempo passou. Aquele professor rigoroso, que um estudante engajado não compreendia, atravessou a vida acadêmica e a magistratura deixando uma lição que não se aposentou.
Hoje, olhando os tempos de antes e depois, renovo a esperança de que a honestidade não se cansa e vence, ainda que seja apenas pela história.
Parabéns, professor. Minhas desculpas.