João Pessoa, domingo, 4 de outubro de 2026
Verbum caro factum est
03/10/2026

Sub tuum praesidium…

O nome já anunciava que Chagas tinha algo de muita fé, na carne. O tratamento, embora comum, no seu caso o aproximava da santidade. Daí por que, quando evocado por inteiro — Seu Chagas —, parecia uma revelação de estigmas.

Em família, a vida sempre foi uma festa, e a religiosidade ajudava a conservar as memórias dos encontros. Eles haviam chegado aos sertões como a Igreja, abençoados pelo rebanho que se espalhava nas terras secas, sacralizando a região como um grande presépio. Assentaram-se nas margens do rio Piancó, nas terras da Misericórdia.

Deixando de ser meninos, os filhos foram crescendo e atirando-se pelo mundo, tomando a importância que a vida lhes permitia, à força do trabalho.

José e Paulo, por exemplo, deram-se também às artes políticas, em paralelo ao reconhecimento profissional como jornalista e médico, respectivamente.

Paulo tinha mais tempo para as estripulias e temperava o viver com doses essenciais de prazeres gozosos, como se debulhasse um terço correspondente à parcela biográfica que lhe restaria marcada mais adiante — in absentia.

Seu Chagas se portava garboso, metido num terno branco completo, costurado em linho diagonal S-120, engomado para o seu corpo como se lhe erigisse uma imagem “altarizada”.

Assim foi seguindo o passeio, até que a idade lhe comprometeu a higidez e já não lhe permitia cuidar de si como antes.

Paulo e Tico de Olegário se encontravam em casa, planejando um feriado, quando decidiram contribuir com a assepsia de Seu Chagas, dando-lhe um banho, porque achavam que, havia muito, “o velho” já não era o mesmo.

Sem cerimônias e pudicícias, foram lavando as partes do velho quando notaram um volume destacado à altura do esterno, no meio do peito. E foram lavando, e o volume diminuindo. Em determinado ponto, a limpeza daquela protuberância exigiu o auxílio de um canivete para retirar as partes mais resistentes. À falta de sangramento, continuaram.

Com a paciência de um monge em samádi, perfeitamente canonizável, Seu Chagas foi puxando umas orações fortes e antigas — em latim.

Paulo e Tico notaram, então, que aparecia um antigo escapulário que o velho usava e que, à falta de banho, incorporara-se à anatomia do pescoço e do peito.

Enquanto os dois retiravam o escapulário, o velho Chagas terminava suas orações.

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