João Pessoa, segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Debate
19/10/2026

“Tá legal, eu aceito o argumento”
— Paulinho da Viola, “Argumento”

Morreu neste domingo Benito di Paula, aos 84 anos. “Retalhos de Cetim”, “Mulher Brasileira”, “Tudo Está no Seu Lugar”. Cada título desses encontra alguém, em algum lugar, lembrando um instante da vida.

Todo mundo tem uma música de memória. Um namoro, uma viagem, uma festa, alguém que não voltou. Às vezes, bastam os primeiros acordes para que uma época inteira entre pela porta. A música guarda o que a memória, sozinha, não consegue.

Benito fazia parte desse Brasil. Com seu bigode, seus adornos e seu piano de cauda, levou o samba aos palcos e à televisão. No tumulto festivo do Chacrinha, cabia também sua música. Havia naquela presença uma confiança no público: o povo podia gostar do piano, do samba, do romantismo, de tudo junto. Homenageou Luiz Gonzaga em “Sanfona Branca” e foi homenageado de volta. E aquela “Proteção às Borboletas” é bem zen.

Em “Charlie Brown”, convidava um personagem estrangeiro a conhecer o país. Apresentava-lhe lugares, artistas, o futebol, o carnaval: um Brasil reconhecido pelas coisas que criava e amava. A canção tinha a alegria de quem recebe uma visita e quer mostrar sua terra. Oscar, meu irmão, cantava a música referindo-se a papai.

Era Brasil.

E esse Brasil também discutia pela música. Noel Rosa e Wilson Batista fizeram da divergência uma sequência de sambas. Dalva de Oliveira e Herivelto Martins levaram ao repertório as feridas de uma separação. A intimidade chegava ao rádio, e o público ouvia os dois lados. Nos anos 60, Luiz Gonzaga troçou dos cabelos e dos medalhões da juventude no “Xote dos Cabeludos”, parceria com José Clementino, em plena era da Jovem Guarda. Caetano também deixou sua provocação a “Falso Brilhante”, de Elis Regina, em “Diamante Verdadeiro”, gravada por Maria Bethânia.

Rita Lee e Paulo Coelho provocaram os colegas em “Arrombou a Festa”, mirando Caetano e até os sucessos de Mauro Celso. Mauro Celso respondeu com “Macacos Coloridos”. Havia ironia, vaidade, ressentimento e até ofensa. Não convém embelezar o passado: também se batia abaixo da cintura. Mas aquelas disputas deixavam canções para além do desaforo.

Benito também se viu envolvido numa dessas histórias.

Em 1973, “Retalhos de Cetim” contou um pequeno drama no meio da maior festa popular do país. Um homem ensaiara o samba, comprara surdo e tamborim, gastara em fantasia. Esperava ver a mulher amada desfilar. A escola estava bonita; a promessa parecia certa. Mas chegou o carnaval, ela não apareceu, e ele chorou na avenida. Toda a preparação de um ano desaguava numa ausência.

É curioso: a canção falava em surdo e tamborim, enquanto seu compositor se consagrava ao piano. Dois anos depois, Paulinho da Viola lançou “Argumento”, pedindo cuidado com as mudanças do samba e lembrando a falta dos instrumentos tradicionais. Espalhou-se a interpretação de que o recado era para Benito. “Não Me Importa Nada”, de Benito, passou a ser ouvida como resposta. Paulinho negou a intenção de atingir o colega — ressalva necessária à história.

A discussão, entretanto, tinha substância. Até onde se podia mudar o samba? O que precisava ser preservado? O piano ameaçava uma tradição ou ampliava suas possibilidades? E por que estranhar o piano de Benito, se a aproximação entre samba e jazz já encontrara acolhida na bossa nova? Havia o que dizer, o que ouvir e o que contestar.

Havia, sobretudo, acordo sobre o objeto. Discordava-se do samba, mas era do samba que se falava. Um debate só é legítimo quando os debatedores concordam sobre o que vão debater; sem isso, cada um responde a uma pergunta que o outro não fez.

Hoje, nem isso. O debate foi reduzido a adjetivos e mímicas; faltam-lhe substantivos. Uma careta pretende encerrar um raciocínio. Um rótulo dispensa a resposta. Já não se procura a falha do argumento: procura-se uma maneira de tornar desprezível quem o apresentou.

Benito se foi. Ficaram as canções, os instantes da vida que elas guardam e a lembrança de um país que conseguia pôr suas divergências em música.

Faz falta ao Brasil aquela disposição, anunciada antes da discordância: aceitar o argumento — e seguir no debate. Ao final, talvez não houvesse vencedor, mas a conversa daria música. E cada qual tocaria o seu samba.

Hoje, um amigo me falou que compartilhou a capital da Paraíba com Benito durante um bom tempo.

“Quando eu voar, me proteja, sou parte da sua vida.”

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