João Pessoa, terça-feira, 27 de outubro de 2026
O nó górdio
26/10/2026

Traíra sem espinha

A traíra tem duas reputações: a de comer os outros peixes e a de dificultar a vida de quem a come. A primeira vem da natureza; a segunda, das espinhas. Não se lhe pode negar certa coerência.

Diz-se que é petisco de pobre. Pequena, chamam-lhe suvela; acompanhando um angu, no Nordeste, tem fama de sustança. O pobre, que nem sempre pode escolher o peixe, aprendeu a discutir com as espinhas.

Dessa discussão nasceram métodos, escolas e segredos. Há os cortes miúdos de ambos os lados, chamados tico-tico, tanto mais acreditados quanto mais próximos e profundos. Há quem retire as espinhas à mão, com uma paciência que, aplicada a outros negócios, talvez rendesse fortuna. E há os que sabem, mas não contam. São os mais respeitados.

Daí os restaurantes anunciarem traíra sem espinha. O freguês lê, acredita e senta-se. A esperança também abre o apetite.

Catatau não acreditava.

Marceneiro de ofício, habituado a conhecer a resistência das coisas, ouvia aquelas histórias nas pescarias a que o levavam os amigos, gente dada às alegrias de beira de açude. Entre um copo e outro, aparecia sempre alguém que conhecia o modo definitivo de vencer as espinhas. O modo variava; a certeza era a mesma.

Catatau escutava. A madeira ensinara-lhe que certas dificuldades se resolvem com ferramenta; outras, mudando a pergunta.

Por muito tempo, sustentou que a traíra sem espinhas era impossível. O próprio nome do peixe lhe parecia argumento bastante. Depois, sem anunciar a conversão, começou a dizer que possuía uma receita.

— E qual é?

— Não passo pra ninguém.

Não acrescentava nada. Deixava que os outros trabalhassem na fama do segredo, serviço que lhe faziam gratuitamente e com grande aplicação.

A notícia chegou a Luizinho do Pagode, que apresentava, na famosa Rádio Tabajara, um programa de música temperado com curiosidades de boteco. Luizinho convidou-o a ensinar a receita ao vivo.

Catatau aceitou.

Aqui o leitor poderá estranhar que um homem tão cioso de seu segredo resolvesse entregá-lo, de uma vez, a toda a audiência. Também os amigos estranharam. Catatau, porém, não era obrigado a explicar a receita antes de ensinar a receita.

Marcaram para uma sexta-feira.

Durante uma semana, Luizinho anunciou a iguaria. Entre um pagode e outro, vinha a promessa: Catatau ensinaria a fazer traíra sem espinha. Não era conversa de pescador; havia dia, hora e microfone.

Na sexta-feira, o marceneiro chegou cedo, acompanhado de alguns amigos. Se levava consigo a tranquilidade dos grandes cozinheiros ou a dos grandes maliciosos, não sei dizer. Os amigos ainda não tinham elementos para julgar.

Começou pela compra do peixe. Explicou a limpeza, os cortes, a quantidade de água. Vieram os tomates, as cebolas, o coentro, o sal a gosto e os demais temperos. Nada faltava, nem mesmo a solenidade.

Luizinho interrompia de quando em quando:

— Devagar, Catatau, pro pessoal anotar.

Catatau obedecia. Dava a cada ingrediente o tempo necessário para entrar na panela e no caderno dos ouvintes.

Chegou ao cozimento:

— Dois minutos.

Fez uma pausa.

— Nem um, nem três. Dois.

A precisão tranquilizou a audiência. Um homem que distinguia assim os minutos não estaria brincando com as espinhas.

Os amigos ouviam, Luizinho acompanhava e, nas cozinhas alcançadas pela Tabajara, é possível que alguma mão já tivesse procurado uma panela. Faltava apenas o segredo: o pulo do gato. Tudo até ali era preparo; a revelação vinha agora.

Catatau aproximou-se do microfone:

— Tire tudo da panela, deixe esfriar um pouco, ponha no liquidificador e bata por três minutos. Pronto!

Houve na cabine um silêncio breve, mas completo.

Os amigos olharam para Catatau. Luizinho também. O inventor da receita conservou a serenidade de quem entregara exatamente o que prometera.

Luizinho foi o primeiro a recuperar a fala:

— Mas, Catatau, meu amigo, assim é phooddaa! Com PH de Pharmacia, dois o’s de Hollywood, dois d’s de Toddy e dois a’s de Saara!

E encerrou o programa.

Catatau está hoje aos noventa anos, vivinho da silva, dedicado ao trabalho mais fino e artesanal com a madeira. Pode ainda contar a história a quem duvide.

Colombo pôs o ovo em pé; Alexandre cortou o nó. Catatau tinha um liquidificador.

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