Alexandria não ardeu num dia.
É a primeira coisa que devemos lembrar quando olhamos para as ruínas de uma civilização. Os grandes mundos não acabam de repente. Antes de caírem os muros, alguma coisa já desapareceu dentro deles. Primeiro perdem a confiança naquilo que descobriram. Depois passam a temer o conhecimento que produziram. Por fim, levantam muralhas para protegê-lo — ou para proteger-se dele.
A Biblioteca de Alexandria foi muito mais do que uma biblioteca. Tornou-se o grande símbolo de uma civilização que pretendeu reunir o mundo pelo conhecimento. O helenismo levou consigo essa extraordinária pretensão: conhecer, traduzir, comparar, perguntar. Seu desaparecimento não aconteceu numa noite, nem se explica pelas chamas de um único incêndio. É justamente por isso que Alexandria permanece como metáfora. Bibliotecas podem queimar durante séculos.
Roma ainda tentou prolongar aquele mundo. A força de suas legiões construiu um império, mas não foi somente pela força que Roma permaneceu. O direito, a cidadania, as estradas, as cidades e a incorporação dos povos criaram uma ideia universal que ultrapassava a espada. Até que a espada voltou a ser necessária.
Átila é, para mim, menos o homem que ameaçou Roma do que o símbolo de uma velha força que obrigava uma civilização a pensar novamente em muralhas. Quando a segurança passa a preceder todas as outras necessidades, a liberdade começa a negociar consigo mesma. Essa história se repetiria. Mas nem sempre o conhecimento perseguido desaparece.
Portugal deixou uma pequena folha de alecrim sobre essa história. Quando o gênio português começou a abrir o mundo às grandes navegações, não lhe bastava a cultura náutica que a tradição depois reuniria sob o nome mítico de Escola de Sagres. Havia muito mais atrás das caravelas. Havia os pinheiros de Leiria, plantados muito antes de o horizonte chamar os navegadores, oferecendo madeira e pez aos navios que ainda não existiam. E havia a herança dos Templários, perseguidos e extintos no início do século XIV, em França, mas sobreviventes em Portugal na Ordem de Cristo, da qual o Infante D. Henrique seria administrador.
O mundo novo não nasceu do nada. Nasceu também daquilo que o mundo anterior não conseguiu destruir. Eis uma das grandes ironias da história: a França perseguiu os Templários; Portugal preservou parte de sua herança. Mais de um século depois, a cruz da Ordem de Cristo atravessava oceanos nas velas portuguesas.
O conhecimento encontra caminhos; às vezes, encontra o mar.
A Belle Époque acreditou no futuro com uma confiança que hoje nos parece quase infantil. Ciência, indústria, eletricidade, ferrovias, automóveis, fotografia, cinema, arquitetura, comunicação: o homem parecia finalmente disposto a construir o amanhã.
A Bauhaus levou essa promessa para dentro da própria vida. Arte, técnica e indústria poderiam participar de uma mesma criação. O mundo não precisava apenas ser habitado. Poderia ser redesenhado.
Então vieram as guerras, o fascismo, o nazismo e as experiências socialistas autoritárias. Diferentes entre si, produziram, em graus e formas distintos, concentração de poder, perseguições, censura e submissão da cultura a projetos políticos.
A Bauhaus fechou. Livros foram queimados. Artistas partiram. Professores desapareceram das universidades. Outros atravessaram oceanos levando consigo aquilo que o poder imaginava ter expulsado. Há uma lição nisso. Pode-se fechar uma escola. É muito mais difícil aprisionar uma ideia.
Depois da catástrofe, o Ocidente não reconstruiu a Belle Époque. Construiu outra sociedade. O Estado cresceu, o welfare state se consolidou, direitos sociais se ampliaram e uma nova relação entre liberdade e segurança passou a organizar as democracias. Mas a velha disputa permaneceu. Toda vez que a humanidade consegue escapar do poder, o poder se reorganiza para alcançá-la.
A imprensa retirou o livro dos mosteiros e dos palácios. Vieram licenças, índices e censores. O rádio atravessou paredes. Vieram concessões e controles. A televisão entrou nas casas. A internet, finalmente, permitiu que praticamente qualquer indivíduo pudesse publicar para o mundo.
E agora chegou a inteligência artificial.
Ainda não compreendemos o tamanho do acontecimento. A imprensa multiplicou o livro. A internet multiplicou o acesso ao livro. A inteligência artificial fez alguma coisa inteiramente diferente: a biblioteca começou a responder.
Um homem sozinho pode perguntar, comparar, traduzir, calcular, programar, compor, confrontar tradições e percorrer em minutos caminhos intelectuais que antes exigiam bibliotecas, especialistas, instituições e anos de pesquisa. Não significa que a máquina saiba a verdade. Muito menos que seja infalível. Significa que caiu mais uma muralha entre o indivíduo e o conhecimento. E imediatamente começamos a discutir como levantar outra.
Existem razões legítimas para regular tecnologias poderosas. Crimes continuam sendo crimes quando praticados por meio de computadores. A intimidade continua merecendo proteção. Crianças precisam ser protegidas. Fraude, manipulação e violência não adquirem dignidade porque receberam um algoritmo.
Outra coisa, porém, é transformar proteção em tutela do pensamento. É nesse ponto que também me preocupa uma característica daquilo que genericamente se convencionou chamar cultura woke. Não pelo nome, que já significa coisas demais para significar alguma coisa com precisão, mas por uma disposição presente em setores da cultura contemporânea: vigiar palavras, substituir argumentos por julgamentos morais e retirar determinadas ideias do espaço do debate antes mesmo de enfrentá-las.
A censura não começa necessariamente com um policial diante da porta. Às vezes começa quando uma sociedade decide que determinadas perguntas não devem ser feitas.
Agora a Europa enfrenta outro problema. As ações híbridas atribuídas à Rússia — ataques cibernéticos, sabotagem, desinformação e interferência — provocam respostas de segurança. É compreensível. É também perigoso. Uma sociedade aberta precisa defender-se. Mas existe uma contradição que atravessa toda a história: quanto de sua abertura ela pode sacrificar para continuar aberta?
A ameaça produz medo. O medo pede proteção. A proteção cria instrumentos de controle. E os instrumentos construídos durante a emergência raramente desaparecem inteiramente quando a emergência termina.
Átila reaparece diante dos muros.
Não é preciso imaginar qualquer conspiração. A história consegue produzir ironias sem que ninguém as combine. Uma potência autoritária pode ameaçar sociedades abertas e, justamente por ameaçá-las, induzi-las a construir mecanismos de vigilância e controle que as tornam menos abertas. Não se salva uma civilização aberta fechando-a.
É nesse momento que a discussão chega à principal tribuna política do mundo. Na Assembleia Geral das Nações Unidas, a inteligência artificial já aparece como uma das grandes questões deste tempo. Fala-se em governança, segurança, supervisão, autorização, desenvolvimento humano e limites. Um dos discursos resumiu a situação numa velha imagem: o gênio já saiu da garrafa.
Saiu. Não há mundo anterior. A inteligência artificial já aconteceu.
E é justamente por isso que eu a vejo de maneira quase oposta à literatura apocalíptica que começa a cercá-la. Se tivesse de ler a inteligência artificial pelo Apocalipse, eu não a procuraria entre as ameaças. Eu a procuraria entre as revelações.
Apokálypsis é desvelamento. E é possível que a inteligência artificial esteja começando a retirar um véu muito antigo.
Durante séculos confundimos a representação do mundo com o próprio mundo. A palavra impressa parecia verdadeira porque estava impressa. A fotografia parecia verdadeira porque fotografava. A voz parecia pertencer necessariamente àquele que falava. A imagem parecia testemunhar aquilo que mostrava. Agora podemos fabricar tudo isso. E, paradoxalmente, ao fabricar a aparência, começamos finalmente a descobrir que aparência nunca foi realidade.
Há alguma coisa nisso que me lembra a antiga percepção dos vaishnavas sobre māyā. Não no sentido simplório de que o mundo não exista, mas no de que nossa percepção condicionada não deve ser confundida com a realidade absoluta.
A inteligência artificial não demonstra Deus. Mas pode revelar alguma coisa muito desconfortável sobre nós: aquilo que durante séculos chamamos realidade era também uma construção de nossos sentidos, de nossa linguagem, de nossas instituições e daqueles a quem concedemos autoridade para nos dizer o que era verdadeiro. O rei fez isso. O sacerdote fez isso. O Estado fez isso. O partido fez isso. A universidade fez isso. A imprensa fez isso. As plataformas fizeram isso.
Agora, pela primeira vez, estamos construindo uma ferramenta capaz de confrontar todas essas mediações ao mesmo tempo. É por isso que a inteligência artificial me parece menos uma ameaça ao conhecimento do que uma segurança contra sua apropriação — desde que não permitamos que ela própria seja apropriada.
O verdadeiro perigo talvez seja exatamente o contrário daquele que anunciam. Não está na inteligência que avança. Está no medo que pretende fazê-la parar.
A humanidade já conheceu esse medo. Conheceu-o diante do livro, da ciência, da liberdade religiosa, da máquina, da indústria, da comunicação e de cada instrumento que retirou das mãos de poucos aquilo que poderia pertencer a muitos.
As chamas de Alexandria não são, aqui, as chamas de um incêndio histórico. São uma metáfora. Representam todos os momentos em que uma civilização, assustada com o conhecimento que alcançou, tenta regressar ao mundo anterior.
Mas não há mundo anterior.
Podem regular a inteligência artificial, cercá-la, desacelerá-la e submetê-la aos velhos poderes. Podem conseguir atrasar durante algum tempo aquilo que ela anuncia. Não poderão desinventá-la.
A humanidade levou milênios para construir uma biblioteca capaz de conversar com cada homem individualmente. Seria uma ironia terrível chegar até aqui e, por medo das respostas, apagar as luzes da biblioteca.
Alexandria não pode arder outra vez. A realidade não pertence ao poder.
Se existe uma perspectiva absoluta do real, ela não pertence ao rei, ao Estado, ao partido, ao censor, ao algoritmo nem a nós. É divina.
