João Pessoa, domingo, 4 de outubro de 2026
Ossos, músculos e metabolismo – Parte 2: A nova face da osteoporose pós-menopausa
04/10/2026

*Por João Modesto Filho

A osteoporose pós-menopausa vive uma importante mudança de paradigma. No BRADOO 2026, observou-se uma abordagem cada vez mais centrada no risco individual de fratura, e a nítida evolução brasileira acompanhando mudanças importantes observadas nas recomendações internacionais recentes.

Assim, o primeiro conceito que foi reforçado foi que a osteoporose não deve ser interpretada apenas pelo T-score. A densitometria continua fundamental, mas sua interpretação precisa incorporar idade, história de fraturas com suas localizações, fatores clínicos de risco, risco de quedas e, quando indicado, fazer uma avaliação vertebral. Foi lembrado que a própria declaração ASBMR/BHOF de 2024 já enfatizava que a identificação de fraturas vertebrais, a DXA e os fatores clínicos devem orientar conjuntamente a decisão terapêutica.

Por conta disso, ganha importância a distinção que foi feita entre alto, muito alto e risco iminente de fratura. Por isso, uma fratura recente, especialmente de vértebra ou de quadril, não representa apenas um evento passado, mas sinaliza uma fase de elevado risco para novas fraturas, o que justifica uma intervenção mais rápida e intensiva. Isso favorece, sem dúvida, uma medicina mais preventiva, na qual não se espera necessariamente uma segunda fratura para intensificar o tratamento.

Por seu turno, o FRAX continua importante para estimar a probabilidade de fratura, mas não deve substituir o julgamento clínico. Nesse sentido, a combinação de FRAX, DXA, avaliação vertebral e história individual oferece uma estimativa mais realista do risco. O objetivo, então, deixa de ser simplesmente tratar a osteoporose mas, sim, reduzir de forma significativa a probabilidade de uma nova fratura.

Foi demonstrada a importância desse tópico porque isso vai repercutir diretamente na escolha do medicamento. Para pacientes de alto risco, os bisfosfonatos continuam tendo papel fundamental, enquanto o denosumabe permanece uma alternativa eficaz. Entretanto, nos indivíduos de muito alto risco ou risco iminente, cresce a justificativa para considerar inicialmente agentes osteoformadores, como teriparatida ou romosozumabe. A Endocrine Society recomenda teriparatida/abaloparatida para pacientes de muito alto risco e romosozumabe por até 12 meses em determinadas mulheres com risco muito elevado.

Em termos farmacológicos, o romosozumabe mereceu atenção especial por sua capacidade de tanto estimular a formação óssea como o de reduzir a reabsorção. Entretanto, sua utilização exige avaliação cuidadosa do risco cardiovascular, particularmente em mulheres com antecedentes de infarto ou acidente vascular cerebral. Após o período de tratamento, recomenda-se terapia antirreabsortiva para preservar os ganhos obtidos.

Outro destaque do evento foi a valorização da sequência terapêutica. A escolha do primeiro medicamento não deve ser feita isoladamente e sim deve-se pensar desde o início em como manter os ganhos alcançados com o tratamento inicial. Assim, foi analisado que um tratamento anabólico seguido de um tratamento antirreabsortivo pode ser particularmente importante em pacientes de maior risco.

Quanto ao denosumabe, esse exige uma atenção especial, pois, diferente dos bisfosfonatos, não é recomendado simplesmente interrompê-lo ou atrasar suas aplicações. Sua suspensão sem um tratamento subsequente pode levar a um aumento da remodelação óssea, perda rápida de densidade mineral e aumento do risco de fraturas vertebrais. Portanto, ao iniciar denosumabe, deve-se também planejar como será feita a transição para outro medicamento.

Tivemos também o conceito do tratamento orientado per metas, o qual propõe, conforme a declaração ASBMR/BHOF de 2024, individualizar os objetivos de acordo com o risco, a história de fraturas e os valores de densidade mineral óssea, permitindo intensificar ou modificar o tratamento quando as metas não forem atingidas.

Essa abordagem, conforme apresentado, amplia ainda mais o significado da DXA. Assim, além de diagnosticar a baixa densidade mineral óssea, ela também pode contribuir para a avaliação longitudinal da resposta e, quando disponível, o estudo da composição corporal. Com a integração do osso com músculo, gordura, fragilidade e risco de quedas nos aproximamos de conceitos como osteossarcopenia e envelhecimento saudável.

Por tudo isso, estamos deixando para trás uma visão fragmentada da osteoporose. O paciente não é apenas um T-score, uma vértebra ou um fêmur. O futuro aponta para a integração de DXA, VFA, FRAX, TBS, composição corporal, 3D-Shaper, avaliação muscular, marcadores metabólicos, genética, microbiota e inteligência artificial.

O BRADOO 2026 representou mais do que uma atualização de meios diagnósticos e terapêuticos. Ele sinalizou uma mudança de mentalidade no sentido de identificar precocemente quem pode fraturar, reconhecer quem precisa de tratamento mais potente e rápido, escolher a sequência terapêutica adequada e acompanhar o paciente até atingir e manter uma meta clínica de segurança. A osteoporose pós-menopausa deixa, assim, de ser uma doença definida apenas pela densitometria para tornar-se uma condição clínica cujo verdadeiro desfecho e evitar a primeira e, sobretudo, a próxima fratura. O Consenso Brasileiro de Osteoporose Pós-Menopausa 2026 da ABRASSO, apresentado no BRADOO 2026 e que será publicado nos próximos meses, representará o grau mais elevado de segurança e inovação prática na condução da saúde óssea.

* Médico endocrinologista – CRM PB 973 / RQE 1026

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