*Por João Modesto Filho
São Paulo sediou, em agosto, o 12° Congresso Brasileiro de Densitometria, Osteoporose e Metabolismo, o BRADOO 2026. No evento, foram discutidos inúmeros tópicos que reforçaram uma mudança importante na forma de compreender a saúde óssea.
0 BRADOO não tratou a osteoporose apenas come uma doença da mulher pós-menopausada. Foram discutidos desenvolvimento fetal, infância, aquisição do pico de massa óssea, adolescência, homens, menopausa, envelhecimento, câncer, diabetes, obesidade, doença renal, gestação, transplante, doenças autoimunes, tratamentos, IA, e outros itens.
Durante décadas, a osteologia (estudo dos ossos) esteve muito focalizada na densidade mineral óssea e na osteoporose. Hoje, porém, esse conceito está muito mais amplo, pois osso, músculo, gordura e metabolismo estão intimamente ligados. Por isso, tal integração ganha maior importância por conta do envelhecimento populacional e da epidemia de obesidade que estamos vivenciando. Tudo isso foi discutido de forma abrangente.
Nesses termos, embora a obesidade possa proteger parcialmente a densidade óssea, isso não significa necessariamente um esqueleto saudável já que gordura visceral, inflamação, resistência insulínica, sedentarismo e alterações hormonais interferem na qualidade musculoesquelética.
Temos ainda que o envelhecimento favorece a perda progressiva de massa e força muscular, com o consequente aumento do risco de fraturas. Assim, temos um conceito que está cada vez mais relevante que é o da osteossarcopenia, ou seja, a combinação das fragilidades óssea e muscular.
Por outro lado, estamos numa verdadeira revolução provocada pelos novos medicamentos para tratamento da obesidade come Semaglutida, tirzepatida e outros agonistas incretínicos, os quais produzem grande redução do peso e da adiposidade. No entanto, emagrecer não significa apenas diminuir um número mostrado pela balança, pois precisamos saber o que está sendo perdido durante o emagrecimento.
No BRADOO, foi colocado que muitos estudos mostram que a maior parte da perda ponderal ocorre às custas de gordura, o que é um grande benefício. Mas, lamentavelmente, pode ocorrer redução de massa magra, embora não signifique necessariamente perda equivalente de músculo funcional.
Por isso, não devemos interpretar toda redução da massa magra como perda muscular, pois seria uma simplificação inadequada. A preservação da força, da função física e da qualidade muscular talvez sejam tópicos mais importantes.
Quanto ao osso especificamente, numa perda de peso não existem respostas claramente definidas. As evidências discutidas, por exemplo, não demonstraram que os agonistas de GLP-1 aumentem decisivamente o risco de fraturas. Por outro lado, evidenciou-se que as grandes perdas de peso podem modificar o metabolismo ósseo por mecanismos mecânicos, nutricionais e hormonais. Nesse sentido, muitos estudos recentes continuam investigando os efeitos de semaglutida e tirzepatida sobre densidade e qualidade óssea.
Por seu turno, a densitometria óssea por DXA assume novo sentido já que ela não deve ser vista apenas como instrumento para medir densidade mineral óssea e apresentar um T-score. Nesses termos, essa mesma tecnologia permite avaliar massa magra, distribuição de gordura e outros parâmetros relacionados à composição corporal, o que permitirá caminhar para uma fenotipagem musculoesquelética e metabóIica.
Todas essas mudanças mostram que avaliar apenas peso, IMC e densidade óssea pode ser insuficiente para compreender o risco futuro do paciente. Deve-se, sim, considerar força muscular, funcionalidade, circunferência abdominal, composição corporal, histórico de fraturas e mesmo o risco cardiovascular.
Por isso, foi muito bem colocado e perfeitamente entendido que a prevenção deve começar muito antes da instalação da osteoporose. Assim é que a infância e a adolescência são fundamentais para a aquisição do pico de massa óssea, enquanto na vida adulta atividade física, alimentação adequada, exposição solar responsável e controle de doenças metabóIicas tornam-se essenciais. Já na velhice é fundamental preservar músculo, equilíbrio e capacidade funcional, que são tão importantes quanto preservar a massa óssea.
Um outro ponto bem real do foi relacionado a alimentação na perda de peso. Essa precisa mudar de perspectiva, pois não se trata apenas de restringir calorias, mas de garantir proteínas, micronutrientes e qualidade alimentar durante o emagrecimento. Exercícios resistidos assumem papel fundamental na preservação da massa muscular e na estimulação do tecido ósseo. Por isso, medicação, nutrição e exercício devem caminhar juntos.
Um outro ponto interessante e fascinante foi quanto à aproximação entre osteologia, genética, microbiota, metabolismo e o emprego da inteligência artificial. Hoje, o osso é reconhecido como um órgão metabolicamente ativo, integrado a vários sistemas do organismo e a IA pode ampliar a capacidade de interpretar imagens, composição corporal e fatores de risco. A medicina, conforme bem discutido, tende a sair de diagnósticos isolados para modelos preditivos e individualizados.
Por fim, o grande ensinamento do BRADOO 2026 talvez tenha sido justamente o de não tratar apenas a doença, mas o organismo como um todo. Afinal, o objetivo do tratamento da obesidade não deve ser somente perder peso. O objetivo do tratamento da osteoporose não deve ser somente aumentar a densidade mineral óssea. E o objetivo do envelhecimento saudável não deve ser simplesmente viver mais.
Portanto, o verdadeiro desafio é viver mais tempo com músculo, osso, metabolismo e funcionalidade preservados. E talvez esse seja um dos mais importantes pontos das grandes fronteiras da medicina contemporânea, qual seja emagrecer sem fragilizar, envelhecer sem perder função e tratar o paciente além dos números.
* Médico endocrinologista – CRM PB 973 / RQE 1026