João Pessoa, segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Ultraprocessados e saúde: O impacto na epidemia da obesidade e doenças crônicas
28/09/2026

* Por João Modesto Filho – Médico endocrinologista

Ainda sobre o Congresso de Endocrinologia realizado no Rio de Janeiro há poucos dias e motivo da nossa última coluna, um dos temas bem discutidos foi sobre o papel dos alimentos ultraprocessados sobre nossa saúde.

Foi bem demonstrado que a alimentação contemporânea passa por uma transformação profunda, marcada pela crescente presença dos alimentos ultraprocessados. Tal mudança não representa apenas uma alteração nos hábitos alimentares, mas, sim, pode estar contribuindo para a epidemia mundial de obesidade e para o aumento de diversas doenças crônicas. As evidências apresentadas nas palestras permitem compreender esse fenômeno a partir de três aspectos fundamentais que são o crescimento do consumo desses produtos, a perda da qualidade da alimentação e sua associação com vários problemas de saúde.

No primeiro aspecto, foi mostrada a expansão do consumo dos ultraprocessados em diferentes países. Esse crescimento é bem expressivo nos países de baixa e média renda, onde ocorre uma rápida substituição dos padrões alimentares tradicionais por produtos industrializados. J nos de alta renda, ocorre uma estabilização, porém em níveis muito elevados. Nesse sentido, estabilização não significa necessariamente melhora da alimentação, mas pode representar a manutenção de um padrão alimentar já muito dependente desses produtos.

O segundo aspecto diz respeito à qualidade da dieta. Foi mostrado que inúmeros estudos realizados em diferentes populações revelaram que, quanto maior a participação dos ultraprocessados na alimentação, maior tende a ser o consume de açúcar livre, gordura total e gordura saturada. Isso pode levar à diminuição de fibras, proteínas, potássio e outros componentes importantes para a saúde. Dessa forma, a questão vai muito além da quantidade de calorias, pois envolve a composição da dieta e a presença ou ausência de nutrientes e compostos importantes.

Um dos achados mais relevantes apresentados veio de estudos clínicos que compararam dietas com e sem ultraprocessados. Em resumo, pessoas submetidas a dieta com ultraprocessados consumiram mais calorias e ganharam mais peso, mesmo quando as dietas apresentavam composição semelhante. Em outro estudo, a diferença chegou a aproximadamente 500 calorias por dia. Esses resultados sugerem que textura, palatabilidade, densidade energética, velocidade de ingestão e outras características dos produtos podem influenciar o comportamento alimentar.

A terceira questão é a relação entre o consumo de ultraprocessados e as doenças crônicas não transmissíveis. Uma ampla revisão sistemática reuniu mais de uma centena de estudos longitudinais, e a grande maioria encontrou aumento do risco para problemas de saúde. As associações envolveram condições como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, doenças digestivas e depressão. Embora estudos observacionais não sejam suficientes, isoladamente para provar causalidade, a consistência dos resultados em diferentes populações e a existência de relações dose-resposta fortalecem a preocupação do ponto de vista científico.

Nas discussões, mais uma vez, foi chamada a atenção de que uma dieta mal orientada pode afetar diferentes sistemas do organismo mesmo antes que alterações importantes do peso corporal sejam notadas. Dessa forma, orientar o paciente não deve significar apenas estabelecer uma meta de calorias ou de peso. A palestrante foi enfática na necessidade de discutir a qualidade dos alimentos, o grau de processamento, os hábitos culinários e o padrão alimentar geral. Isso significa valorizar alimentos in natura ou minimamente processados, cozinhar mais e reduzir a dependência de produtos formulados industrialmente para consumo frequente.

No entanto, também foi enfatizado que se deve evitar interpretações extremas. Ou seja, nem todo alimento industrializado é, necessariamente, prejudicial, pois processamento não é sinônimo de ultraprocessamento. O problema está, sobretudo, quando produtos ultraprocessados passam a ocupar parcela excessiva da dieta e substituem alimentos tradicionais, contribuindo para um ambiente alimentar que favorece o consume rápido, frequente e excessivo.

Por fim, a mensagem que ficou foi que a obesidade precisa ser compreendida para além do índice de massa corporal (IMC), da gordura corporal e dos desfechos cardiovasculares. Ela, sim, resulta da interação entre fatores biológicos, comportamentais, ambientais, econômicos e sociais. Assim, educação alimentar, acesso a alimentos saudáveis, valorização da culinária tradicional, regulação da publicidade e políticas públicas devem fazer parte da resposta. A ciência ainda tem perguntas a responder, mas já existem evidências suficientes para agir. Por isso, o desafio não é simplesmente retirar calorias da mesa, mas recolocar alimentos de verdade no centro da alimentação e construir um ambiente que torne a escolha saudável mais fácil para todos.

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