Quando meu filho comunicou que o computador enguiçou, e poderia perder alguma coisa armazenada, parte da minha produção literária, fiquei preocupado. Entre os originais de livros e outros textos em processo de elaboração, estava a crônica que escrevi sobre os novos poemas publicados por Hildeberto Barbosa Filho.
– Sempre fui escabreado com o computador e seu manuseio me cobra paciência. Certas ocasiões, nos leva a se desconectar do mundo virtual.
– Isso acontece, painho, mas todas as coisas ficam nas nuvens…
Enquanto imaginava a crônica como registro do lançamento das suas novas criações literárias de Hildeberto, lembrava da dificuldade de reescrever. Pensava em José de Alencar quando se deparou com necessidade de revisar “O Guarani”, preferindo reescrever o romance que se constitui a narrativa de aventuras e amor entre Peri e Ceci, uma das mais bonitas histórias de ficção da literatura brasileira. Eu não lembrava do que havia escrito em uma lauda e meia de textos.
Sem o computador, a situação era cruciante. O que faria se não recuperar os arquivos do computador? Como iria reconstituir o texto escrito ao calor da festa de lançamento quando luminares da cultura, das artes e da poesia se reuniram para louvação à criação literária de um dos mais destacados poetas paraibanos?
Chegando em casa, vindo do lançamento dos livros de Hildeberto Barbosa – “Sarafim, reino encantado” e “Nunca mais quero tudo” -, pus-me à leitura dos poemas em total abstração. Estava obstinado pela leitura e a observação das fotografias.
Agora, na tentativa de resgatar o que havia registrado, tento lembrar das anotações e das emoções que sentia a cada poema lindo e cada fotografia observada, tentando desfrutar da leitura em sua mais variada plenitude.
No texto perdido, comentava que não desgrudava os olhos do livro, folheando pacientemente, concentrado. As obras chamavam a atenção e, à hora adiantada, fui despertado para o repouso noturno.
No dia seguinte, escrevi uma crônica falando do deslumbramento que as obras do poeta me causaram, sobretudo o livro em que os poemas são ilustrados com fotos que entrelaçam as duas linguagens: da palavra e das imagens.
Escrevia justamente sobre o conteúdo dos poemas e das fotografias que contém beleza estética e riqueza poética que os dois – poetas e fotógrafo – conseguiram capturar com sensibilidade.
Tentando recuperar de memória o texto, lembro que escrevera mais ou menos assim: Hildeberto e David deram vida à paisagem esturricada caatinga nordestina.
Os dois, poetas que se comunicam cada um ao seu modo, nos levam ao deslumbre de olhar a paisagem reveladora do sertão. Recordo ter escrito que os poemas de Hildeberto nos conduzem pelos caminhos de Aroeiras. O poeta encontrou na solidez dos rochedos a força de sua poesia. Decifra a ancestralidade de sua poesia nas pedras de Aroeiras.
Em oportunidades, durante a leitura visual, percebemos a luz da lua se espalhando sobre a vegetação pedregosa e, em tempo de sol abundante, longe observa-se a luminosidade sobre o bico das pedras. As malacachetas assemelhando-se às rosetas luminosas dos arreios dos vaqueiros.
Mesmo com a garantia que os textos e fotografias adormecem “nas nuvens”, essa imaginaria máquina invisível, continuo sendo salvo pelos rascunhos manuscritos.
Quem sabe se um dia, num gesto de doideira dos donos das máquinas, toda a história será apagada. Restarão os escritos em papel, os rabiscos em papiro, as fotografias copiadas, as pinturas rupestres sobreviverão.
Ainda lembrei do que escrevi sobre as emoções daquela noite, o rastro da imaginação preservado porque alimentado pelos rascunhos. Ainda bem que a noite das leituras foi prazerosa e, enquanto lia os poemas, observava a lua que se mostrava faceira, coberta por nuvens esparsas.
Pude ver, ouvir e tocar com as mãos imaginárias a revelação dos poemas e das fotografias, como se passeasse pelas paisagens de Aroeiras, Taperoá ou Serraria, as nossas paisagens.
