João Pessoa, terça-feira, 20 de outubro de 2026
A praça silenciosa 
20/10/2026

Mais de cinco décadas desde quando avistei pela primeira vez as esculturas de bronze em altos pedestais na Praça João Pessoa, ainda agora, ao passar pelo lugar, arrebatam-me as imagens refletidas de cada peça simetricamente esculpida. Eu olhava, mas não entendia aquelas estátuas.

O monumento erigido em memória do ex-presidente da Paraíba, que dá nome à nossa capital, foi inaugurado em setembro de 1933, com o regozijo da população, ainda comovida pelos nefastos acontecimentos de 1930, por ocasião do assassinato do presidente João Pessoa e de outras personalidades públicas paraibanas.

Durante as tardes, nos anos de 1970, eu gostava de sentar nos bancos desta praça para observar as pessoas passando – umas apressadas ou outras que caminhavam preguiçosamente -, enquanto os raios do sol de verão, passando rente aos telhados do Palácio da Redenção e do Colégio dos Jesuítas, refletiam no bronze das estátuas, me lembravam as antigas pirâmides do Egito que rebatiam a luz solar. Eram imagens das pirâmides que conhecia de fotografia e nas telas de cinema, que revelavam mistério e encantamento.

Rodeadas pelos prédios do Legislativo, Executivo e Judiciário, mesmo não tendo a imponência das pirâmides egípcias, tão belas e misteriosas, míticas e reveladoras de um mundo de grandiosidade econômica e com poder político dos egípcios, as estátuas da praça representam um valor simbólico imensurável para nós, paraibanos.

Este monumento, quase centenário, remete para a paisagem de uma época em que as desavenças políticas e a ganância pelo poder reduziram o pensamento de unidade, deixando rastros que não se apagam.

A Revista O Cruzeiro, edição de 23 de setembro de 1933, registrou a inauguração do monumento, ocorrida no dia 8, que teve a visita do chefe o governo provisório Getúlio Vargas, do ministro José Américo, contando com a presença do arcebispo metropolitano da Paraíba, dom Adauto de Miranda Henrique. A cidade ficou engalanada; as pessoas mal tinham espaço onde se acomodar na antiga praça Comendador Felizardo, demonstrando entusiasmo para manter viva a memória do ex-presidente assassinado.

A população da cidade acompanhou comovida a cerimônia, revelando-se tocante pela homenagem, segundo o registro da revista que trazia fotografias sobre o evento.

Chegando ao governo cinco anos antes, com arrojadas atitudes, o homenageado tinha alentado espírito de servir à Paraíba, com gestos e maneiras que teriam contrariado setores da sociedade ainda movidos pelos costumes edificados alicerçados no novo sistema de governo implantado em 1889.

De autoria do escultor italiano Humberto Gozzo, posto à visitação, o conjunto de cinco esculturas em estilo art déco, construídas em bronze e colocadas em pedestais de granito, aponta para o civismo, o coração e a altivez do povo da Paraíba e faz referência ao ex-presidente João Pessoa, que, à época, representava a fibra dos paraibanos. Na escultura, estão as palavras “Ação”, “Civismo” e “Nego”, numa alusão ao gesto do ex-presidente que se negou a seguir a orientação do presidente Washington Luís para apoiar a candidatura de Júlio Prestes à presidência do país. O conjunto de esculturas simboliza, em síntese, os traços culminantes da vida gloriosa do homenageado, como também aponta para reflexão sobre os valores econômicos e culturais da Paraíba.

O conjunto escultórico da praça foi erigido com propósitos bem definidos: mostrar a grandiosidade da Paraíba e a bravura de sua gente, representada pelo presidente João Pessoa.

Nesta praça, outrora, moças e rapazes trocavam olhares furtivos em passeios vesperais; casais amparados pelas palmeiras aguardavam a lua para a troca de juras. Posteriormente, em tempos mais recentes, transformada em espaço para acompanhamento de sem-terra, não perdeu a imponência do tempo quando a população silenciava para ouvir José Américo falar naquele lugar.

Nos tempos atuais, aquela praça não mais tem o aconchegante ambiente de outrora, o espaço onde eram segredos testemunhados pelo luar. Agora é uma praça silenciosa, guardando as dores dos tempos atuais, como de resto faz grande parte da cidade antiga.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).