*Por Gonzaga Rodrigues
No seu entender, precisaria de alguém estranho à fome, a quem a miséria fosse exceção, para, movido de violenta surpresa, poder romancear a terra dessa realidade embrutecedora dos que com ela convive. Ou dos que dela se alienam.
Numa de minhas crônicas, A fome essa invisível, tentei demonstrar este contrassenso: “A fome, entre nordestinos, oferece dois motivos para não comover: é corriqueira, sem o menor efeito sísmico, e se manifesta sob mil disfarces, mesmo pintada com a cara de herege”. Para espantar, comover, precisaria que um estrangeiro do primeiro mundo entrasse numa casa camponesa do nosso interior, como o fez o inglês que casou com a empregada de um agente do antigo IAA em Londres, e que achou de acompanhar a esposa em visita aos pais, numa casa rural de Sapé. Imagi-ne-se como amanheceu esse londrino, ainda que fosse operário: “Como eles conseguem viver, assim?”- perguntou, espantado, à mulher, depois da gororoba e do pernoite.
Na história social do nosso país, quando a fome é levada a sério, os que tentam amansá-la ou são metralhados até a última velha desdentada e o último cachorro, como se lê em OS SERTÕES de Euclides, ou são levados ao extremo do suicídio, tragados por um “mar de lama” criado como pretexto para intermediar a entrega das riquezas do país ao capital estrangeiro.
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A ficção como a poesia é a aspiração suprema dos que padecem do “mal literário”. Em Nathanael Alves, entretanto, essa ambição era fortemente contida como inconformadamente percebia o cronista e poeta Luiz Augusto Crispim, em O ARCO E A FONTE. Bem próximo dele durante a fase de nosso amadurecimento cultural, fase de leituras comuns, de ideias sociais afins, e no enfrentamento à cultura do constrangimento imposta ao longo do regime de 1964, a alternativa de apelar para a ficção era a nossa ideia fixa. A grande saída, pois a denúncia imediata, objetiva, com clareza de editorial não estava em hora das mais favoráveis. As nuvens que toldavam a luz dos nossos escritos e as batidas nas portas dos patrulheiros da censura federal não davam folga à denúncia aberta. A voz do jornal muito nos expunha, não só pela simpatia e engajamento de muitos na luta desigual contra a exploração desumana do camponês, alvo maior do reacionarismo patronal daquela hora. Insisto em recordar:
“Os que nada deviam andavam olhando para trás, a ameaça em seu encalço. Eram 80 milhões em ação, patrícios e amigos, sem saberem quais os patrícios e os amigos. / E os vizinhos desaparecendo. Iam andando e desapareciam. (…) Não morriam, não ganhavam sepultura, sumindo numa região indecisa, nem terra nem inferno. Era o milagre brasileiro da era Medici”.
Mas tratando cotidianamente com o real a crônica de Nathanael já não viria realizando, dia a dia, uma obra sequenciada de teor ficcional? De estilo ou linguagem peculiar ao conto, sobretudo o conto ministrado por Tchecov ou por Katherine Mansfield aos contistas brasileiros e sul-americanos encabeçados por nosso Trevisan e mais universalmente por Cortázar? Ou pelo miniconto dos nossos dias?
Das seis dezenas de crônicas reunidas em O Pássaro e a Bala não são poucas as que se confundem com a crônica-conto do melhor teor lite-rário. A começar pelo conto épico que dá título ao livro, a que se juntam A viola de Evaristo, Menina de Cafarnaum, Latifundios celestes (um belo experimento de ficção de gênero utópico), O telhado de Hulk, As jabitica-bas de Tambaú, As cruzes do Caminho, O velho André, tantas e tantas. A coletânea, editada há mais de 35 anos, por iniciativa de A UNIÃO e colhei-ta e seleção de Arlindo Almeida contando com a participação da família do autor, está a merecer uma reedição sob as vistas da crítica universitária, uma conquista da Paraíba literária dos nossos dias.
Mas enquanto isto não ocorre, o jornalista José Nunes, devoto fiel da memória do mestre, vale-se da extrema dedicação das filhas por tudo que preserve a memória do pai (Rosângela, Rejane e Roberta Alves) e traz à luz o que há décadas se conservava da melhor forma em originais. São contos que denotam um labor de diversas fases, o primeiro, de que me deu notícia já nos meados dos anos 60, Rosa Amarela, concebido no in-ternamento no hospital e lembrando a passagem do autor pelas licenças aparentemente (só aparentemente) absurdas de Kafka. Seguem-se dez outras narrativas curtas nem sempre trazidas dos caminhos de espinhos e seixos de Arara. Há vivências e ansiedades sofridas profundamente por seres humanos que desconhecem completamente os favores do regime que a alienação social, mesmo dos letrados, considera o regime ideal, o da concorrência das riquezas, nunca do bem-estar social.
Mais do que o meio a fermentar os enredos, desborda no curso in-termitente desta apanha narrativa de Nathanael a denúncia semântica do que acontece ou aconteceu no sedimento da expressão. Sedimentação de puro uso regional. Palavras que o autor arrasta da alma do seu povo para denotar a experiência de vida que a prosa de feitio urbanamente coloni-zado não consegue. Prosa trabalhada desde a crônica ou na crônica-conto e, não raro, espalhando seus efeitos nos antigos editoriais que O NORTE de Luiz Crispim, de Evandro Nóbrega, e Martinho Moreira Franco, a seu lado, fazia as glórias da nossa imprensa.
Presença exemplar marcante no jornalismo de testemunho social, Nathanael Alves, falecido em 1981, na plenitude do seu estilo, é redescoberto, agora, em seus experimentos como ficcionista. Uma ficção que só faz desnudar e avultar a realidade, como bem ensinou José Américo, o homem público com a consciência sedimentada na visão e na arte do escritor, com a sentença que nunca deixa de ser invocada: “Há muitas formas de dizer a verdade. Talvez a mais persuasiva seja a que tem a aparência de mentira”.