João Pessoa, sábado, 24 de outubro de 2026
Bendita musa!
24/10/2026

Os poetas buscam musas para inspirar sua poesia, motivação para produzir sua arte. Os poetas clássicos as tinham como divindades que inspiravam em momentos fulcrais de narrativas. Mesmo que tenham sumido na longa noite escura na época Medieval, foram redescobertas na Renascença, ganharam espaço no período da arte Romântica, perpetuando-se em belos poemas no século passado.

Os poetas pré-clássicos gregos reverenciavam a Deusa da Montanha que os inspirava para gerar belos poemas. Depois de muitos séculos novas musas iluminam mentes orvalhando corações.

As Musas trazem ímã no olhar e na boca sensualidade ao sorrir, bem-aventuradas, cheias de doçura e encanto infinito, revestidas de beleza movem o coração do artista. Revigoram o viver poético, por isso comovem e impulsionam à criação da obra de arte.

Petrarca dedicou mais de trezentos e cinquenta poemas de amor a Laura de Noves, casada, mas que lhe enseja alegria indiscutível. Shakespeare produziu bonitos sonetos para Célia de Thomas Carew. Neruda deixou fixado em poemas seu amor por Matilde. Foi o amor integral de Dante por Beatrice, nome usado para esconder sua paixão por Beatrice Portinari, esposa de Simone dei Bardi, que o fez cantar famosos versos na Divina Comédia.

A sedutora Clódia foi responsável por inspirar Catulo a compor admiráveis poemas. Cervantes, pela boca de Dom Quixote, ressaltou a formosura de Dulcinéia, que fez seu herói lutar contra moinhos de vento.

Poetas sempre tiveram suas mentes povoadas por mulheres que aos seus olhos tinham algo inspirador. Sempre houve belos relacionamentos humanos, a exemplo de Sofia que traz paz no olhar e alegria no sorriso. Vendo-a sem excessos de desejos corporais, mas com amizade construída lentamente, me alcança a exaltação da alma para uma festa espiritual.

Difícil encontrar poesia onde não tenha a presença de uma musa, mesmo sem aparecer o nome de forma visível. Encontrando-a, ao poeta infunde inspiração, traz-lhe contentamento, por vezes amada quando realmente o é.

A poesia tem redefinido minhas alegrias espirituais, o que me basta como recompensa, mas sempre buscando o belo ao redor de mim.

Essa musa ou essa amada, fruto da ternura, redirecionando as alegrias, rejuvenesce o labor poético. O poeta reverenciando aquela que o inspira, leva o leitor a experimentar os mesmos sentimentos.

O poeta Camões escreveu as mais apreciáveis composições da língua portuguesa alimentado por muitas delas, sendo uma das mais famosas a Infanta D. Maria, a mais bela, rica e culta de Lisboa, como também Calíope foi inspiradora do autor de “Os Lusíadas”. Neruda, Paul Éluard e Drummond tiveram seus arquétipos femininos.

Ao poeta cabe abrir-se para acolher essa inspiração vinda da musa que somente ele encontrou, sente e expressa. Em qualquer situação se lhe seja presente, para o poeta é símbolo de graça majestosa.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).