terça-feira, 12 de maio de 2026
O dilema da crônica
12/05/2026

Os netos avançam no contato com o livro. Eles buscam o prazer da leitura como quem absorve a aragem nas manhãs para o frescor da alma.
Sabendo que escrevo crônicas, minha neta primogênita, sendo as vezes minha primeira leitora, pediu-me para uma definição sobre o que é crônica. Confesso que fiquei confuso quanto a resposta.
Há décadas escrevendo crônicas, em oportunidades singular, era lia textos para minha filha quando estava em fase de alfabetização.
Expliquei para a neta que a crônica é um modo simples de falar das coisas do cotidiano. Para se obter um texto razoável, basta seguir as regras básicas de começo, meio e fim.
Para não ficar apenas com a minha opinião, que poderia conter tropeços, recorri a professores e estudiosos. Vasculhei a biblioteca da Academia Paraibana de Letras, onde encontrei livros de acadêmicos e teses universitárias que engrolaram a compreensão do que é crônica.
Para muitos o cronista maior de nosso País é Rubens Braga, que escrevia crônica até sobre a falta de assunto. Lendo seus textos, sabemos que escrever crônica é prazeroso, disse para minha neta.
O assunto da crônica pode estar em uma cena na rua, na visita ao sítio, na frase que se escuta, no gesto da moça que beija a flor no jardim ou na conversa boba na esquina, quando se ficava em esquinas, ou com amigos na livraria. Pode até sobre a falta de assunto, como disse Rubens Braga.
Encontrei entre alfarrábios texto do jornalista Juarez da Gama Batista, publicado no jornal O Norte, no dia 28 de janeiro de 1955, que nos dá uma noção sobre o modelo literário da crônica.
Estudioso de literatura, Juarez definiu o que é “crônica”: “A crônica tem de ser uma coisa simples, natural, perfeitamente tranquila, que deve ser feita por um cidadão de alma de anjo”, escreveu e acrescentou que escrever Poesia, como a crônica, comove e fascina.
Homem de sensibilidade à flor da pele, o professor Juarez disse algo que os comove: “Garanto que me toca, esse empenho todo a respeito do bem-estar alheio”. Um bem-estar que se tornou assunto de sua crônica.
Quer melhor definição dele sobre o que é um cronista: “O cronista é feito, portanto, com o barro dos outros, ou, pelo menos, que é amassado pela mão dos outros. O sopro da vida tem de ser seu mesmo, o batente feito de luz azul fria e teclado indiferente – este é seu só. Mas a areia, não”.
Explico para a minha neta Luana o que alguns críticos definem a crônica como gênero menor na literatura, mas na Paraíba a crônica ganhou de expressão literária Gonzaga Rodrigues, Luiz Augusto Crispim, Carlos Romero, Nathanael Alves, Virginius da Gama e Melo. Sem contar autores brasileiros que deram dignidade a este gênero literário.
Tivemos escritores e os temos que, munidos de inspiração e fina sensibilidade, produzem crônicas de alto valor estético e textos de beleza inconfundível. O grande cronista sabe sentir os detalhes e descreve as coisas de maneira diferente.
Semelhante ao poeta, o cronista sente vontade do isolamento para produzir seu texto, caminha em busca das palavras.
Como na poesia, ao observar o que se passa ao seu redor, o cronista tenta dizer algo, por isso escreve sobre o mesmo assunto mais de uma vez, retornando sem nunca esgotar o tema.
Respondo para minha neta que Rubens Braga foi muitos cronistas juntos e, Gonzaga Rodrigues, homem que nos rodeia, com rara agudeza e de forma regular, fez a adequação da própria experiência nas crônicas produzidas em mais de sete décadas. Releio as crônicas de Gonzaga e Rubens Braga mais do que as de Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade. Me impregnam tanto que tenho medo de plagiá-los involuntariamente.
O dilema da crônica sempre será como atingir a beleza com um patamar literário, o que muitos tentam, mas poucos conseguem o elevado estágio de Machado, de Rubens, de Gonzaga, de Drummond, de Fernando Sabino, do Luiz Augusto Crispim, de Carlos Romero.
Escrever crônica, se aprende escrevendo. A base é leituras, muitas leituras, assim é possível descobrir os segredos deste tão empolgante gênero literário.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).