terça-feira, 28 de abril de 2026
Gonzaga e nós
28/04/2026

Senão o melhor livro do nosso cronista maior, este Café Alvear é o que mais nos chama a atenção pela forma como aborda a vida da cidade, a nossa antiga Parahyba. Gosto bastante das Notas do Meu Lugar, o primeiro que publicou, em 1978, mas também ressaltaria observar com apurado olhar para o mais recente trabalho, Com os olhos no chão, uma coletânea de textos do mais alto nível.
Lugar onde “os humanistas mais sensíveis” se reuniam, no Café Alvear a cidade se reencontrava, pois recolhia a mistura de pensamentos e gestos da população, dos políticos, dos poetas, dos homens de negócios. “Muitos vinham conferir, no exame, a experiência de humanidade de suas leituras”, escreveu Gonzaga sobre este ponto de ebulição da Capital, nos finais de tarde e anoitecer.
No entender de Gonzaga, o Café Alvear se tornou um “ponto de encontro perdido”, de um passado luminoso da nossa história, a ser lembrado. Alguns frequentadores fizeram a cabeça de jovens, enquanto outros brechavam as conversas aceirando as mesas.
Sempre retorno às crônicas de Gonzaga com a mesma voracidade, desde quando, por volta dos primeiros anos da década de 1970, a cada manhã, corríamos à página de Opinião do jornal O Norte para a leitura de seus registros e a leitura de outros cronistas. A sua coluna Arquibancada chamava a atenção pela leveza dos textos e os temas abordados. Devo a Nathanael Alves esse apreço pelas crônicas e a admiração que sinto pelo filho de Alagoa Nova.
Com sua estreia em 1954, a partir de quando sempre tinha um texto que buscava a conscientização para as conquistas sociais, Gonzaga foi se firmando como cronista. A vida da cidade em mais de sete décadas está registrada em seus textos.
O modo como aborda os assuntos, os temas sempre familiares, atraem leitores para suas crônicas.
Em muitas crônicas, ele falava da população que desfilava pelo Ponto de Cem Reis com a mesma desenvoltura daqueles que cruzavam as velhas alamedas da cidade antiga. Apontava a opulência dos frequentadores do velho Cabo Branco, que sempre usavam gravata e terno de brim branco, enquanto moviam as pedras do gamão. Esses dândis, esquentando as cadeiras na sede do antigo clube social, olhavam de soslaio para quem passava na calçada ou entrava na silenciosa Igreja da Misericórdia.
Na Paraíba, Juarez Batista, Carlos Romero, Virgínius da Gama e Melo, Elcir Dias, Germana Vidal, antecederam Gonzaga Rodrigues, Nathanael Alves e Luiz Augusto Crispim deram a crônica dimensão de literatura.
Sem falar dos jornais do Rio de Janeiro e São Paulo, onde Carlos Drummond de Andrade, Rubens Braga, Fernando Sabino, Afonso Romano de Santana, Carlos Heitor Cony e outros, que chegavam até nós.
Lendo essa gente, aumentava o gosto pela crônica.
A universalidade de Gonzaga representa a época quando o jornalismo era alimentado, ainda mais, pelo pensamento greco-romano, o humanismo balizado nas raízes da partilha e da casa comum. O livro sendo instrumento para a construção da nova paisagem humana.
Ele trouxe para a crônica o homem rural com suas ansiedades, as águas correntes dos riachos e o perfume da terra, como José Lins do Rego fez no romance.
Não sei porque o poeta Helder Moura passou um período de fastio – involuntário, suponho – de acesso aos livros de Gonzaga Rodrigues. Seu retorno teve o registro de quem tem intimidade com a crônica deste mestre.
Desde aos primeiros anos da década de 1970 venho aceirando o roçado literário de Gonzaga. Suas palavras escritas e pronunciadas ao pé do ouvido, vêm dando prumo a minha tentativa de desvendar os mistérios das palavras.
Pequeno, recém-chegado do interior, ele me fez entender a excepcionalidade da força da palavra escrita. Ajudou a mudar minha rudeza de escrever, de observar as artes e a literatura.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).