quarta-feira, 22 de julho de 2026
Zé da Luz, iluminai a poesia   
16/04/2026

Até o final dos anos de 1960, na Paraíba vivia um caboclo que tinha a alma cheia de serenidade e sabia cantar o sentimento do povo de sua terra. Ele nasceu em Itabaiana e conquistou os setores culturais do seu Estado com seu jeito simples de narrar nosso viver e nosso sentir. Sua poesia, facunda e simples, espalhava emoção com raízes da terra.  

Seu nome é Severino de Andrade Silva, mas ficou conhecido como Zé da Luz, o poeta que escreveu os livros Brasil Caboclo e O Sertão em Carne e Osso, que tiveram boa acolhida e o reconhecimento de escritores como José Lins do Rego e Manuel Bandeira, somente para citar estes dois nordestinos de alma grande. 

Não foi um caboclo letrado, mas a maneira como expressou o sentimento do mundo, o olhar sensível para as coisas ao seu redor, o transformou num símbolo da literatura cabocla do Nordeste, reconhecido pelos seus conterrâneos. 

A Paraíba tem economia capenga, suas expressões políticas reduzidas, mas sobra a arte como repercussão maior. Não quero nomear, mas temos vultos que se destacaram na literatura com o merecido espaço, e outros que não ganharam o mesmo estrelato porque preferiram ficar na Paraíba, mas igualmente de grande valor. 

A simplicidade dos poemas de Zé da Luz tarde ganharam asas a partir das leituras em uma rádio de Campina Grande, ao final dos anos de 1940. O governador Argemiro de Figueiredo fez publicar pela A União a primeira edição de Brasil Caboclo, um livro que tem a alma do brasileiro dos rincões. Largado ao esquecimento, décadas depois a editora Acauã, de Carlos Roberto de Oliveira, Gonzaga Rodrigues e Nathanael Alves, reeditou esta obra que exprime sentimentos e exterioriza o que está escondido na alma do povo.  

O poeta Eudes Barros deu a grande definição deste livro: “Não há nada de artificial, de falso, de literato nos versos de Zé da Luz. É um livro de carne e osso. Um livro que vive. Um livro humano”. 

Depois de Catulo da Paixão Cearense, é Zé da Luz o mais interessante versejador sertanejo que apareceu, porque canta a simplicidade do povo, porque sua poesia penetra na alma e se apodera de nós. Tinha gosto pelo belo, a tudo expressando com a pureza da alma. Com originalidade e lirismo, fez realçar e pôs em revelo a beleza da cabocla dos engenhos da Paraíba.  

Com seu jeito simples e o modo de olhar ao redor, deu vida às paisagens humanas. Denunciou as amarguras causadas pela falta de políticas públicas que ajudassem a amenizar o sofrimento, cobrou solidariedade diante da dor causada pelas mazelas das estiagens. Não aceitava a exploração do homem pelo homem. Poeta que olhava todos como iguais. Talvez fosse um poeta triste. 

O poeta Manoel Bandeira e o escritor José Lins do Rego tornaram Zé da Luz conhecido em todo o país. Este poeta que deu vida às palavras, haverá de ser reconstruído. Mas Itabaiana não sabe reconhecer a importância do poeta que ganhou espaço entre as estrelas que fulguram na literatura, essa arte produzida sem seguir os padrões acadêmicos.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).