quinta-feira, 9 de julho de 2026
Eles amavam os pobres
09/07/2026

Quando foi encerrado o Concílio Vaticano II, conclave que reuniu mais de 2.500 bispos do mundo inteiro, inclusive várias dezenas de bispos brasileiros. Ao seu final, bispos de várias partes do mundo, dentre os mais comprometidos com a causa dos pobres, inspirados na prática de cristãos primitivos, que, por conta das perseguições sofridas, viam-se obrigados a se encontrarem nas catacumbas romanas, decidiram reunir-se nas catacumbas de Santa Domitila, nos arredores de Roma, para celebrarem a Eucaristia e para selarem um compromisso comum, que ficou conhecido como “Pacto das Catacumbas”. Foi, então, assinado por cerca de cinquenta bispos, posteriormente seguido por um total de quinhentos signatários.  Dentre estes estavam Dom José Maria Pires, Dom Helder Câmara, Dom Antônio Fragoso.

Ao assinarem o “Pacto das Catacumbas”, eles se comprometiam viver intensamente o que pregavam, ou seja: a radicalidade da pobreza, buscando adotar um estilo de vida mais próximo do povo a que eram chamados a servir, em suas dioceses. 

Comemorar essa data se reveste de grande significado, não somente pelas cinco décadas transcorridas, desde então, mas também por nos convidar a uma reflexão apurada do que anunciamos e vivemos.

À luz do compromisso firmado pelos cinquenta bispos que assinaram o documento, também alguns padres se comprometiam mais de perto com a causa dos pobres, a exemplo do Pe. Marcelo Pinto Carvalheira, que buscavam viver sem pompa, não possuir carros luxuosos, nem ocupar belos apartamentos. Sem contradizer aquilo que pregavam, buscavam estar mais perto dos pobres e viver como pobres, os preferidos de Jesus. 

O Pacto foi a grande herança que aqueles bispos conseguiram recolher de sua participação no Concílio Vaticano II, à medida que buscaram adotar uma nova linha de atuação, largando as vestes pomposas, mantendo-se os mais próximos da maioria da população.

Dentre os treze pontos de seu compromisso, assumidos pelos signatários do Pacto das Catacumbas, eles se comprometiam a renunciar ao privilégio da riqueza, assumindo a simplicidade no vestir, não possuir imóveis, recusar títulos honoríficos, nas relações sociais, evitar aquilo que representasse privilégios, prioridades em razão de sua posição eclesiástica. Assumiam dedicar tempo à reflexão, à oração, ao serviço apostólico e pastoral, sendo pastores acolhedores.

Os bispos comprometiam-se a testemunhar uma Igreja profética, capaz de denunciar as injustiças sociais, e de defender os necessitados, apontando caminhos de mudança. Os bispos comprometiam-se a ajudar a mudar a sociedade, no que foram seguidos por padres que também passaram a adotar atitudes que repercutiam junto à população de suas dioceses.  Quando assumiu o Arcebispado da Paraíba, tempos depois, Dom José mudou-se para uma pequena residência, deixando o Palácio do Bispo onde anteriormente haviam morado seus antecessores. Para ele, viver na pobreza não significava miséria, mas levar uma vida com simplicidade.

Numa de suas falas rememorativas desses tempos, Dom José Maria Pires recordava que Dom Helder “exagerou” na dose de radicalidade. Foi morar nos fundos da sacristia da Igreja das Fronteiras, em Recife, vivendo uma vida simples, dormia em rede, andava a pé, não tinha secretária, ele próprio atendia a quem lhe batia à porta.

Dos bispos que assinaram o documento, o paraibano Dom Antônio Fragoso foi outra figura que dava testemunho exemplar. Para ele, o compromisso resultante do Pacto das Catacumbas implicava fazer com que os pobres encontrassem seu lugar nas comunidades onde moravam. “A Igreja tem que ser dos pobres para ser de Jesus”.

Quando rememoramos os cinquenta anos do Pacto das Catacumbas, voltamos nosso olhar para o Papa Francisco que, desde quando foi escolhido para substituir Bento XVI, não se cansa de apontar para uma Igreja servidora, que tenha a cara dos pobres. Igualmente, agora com Leão XIV, os sinais apontam para esses caminhos.

Com Francisco, a Igreja está se “desvestindo” para ficar mais simples e mais perto dos excluídos. Isso faz dele um papa simples, capaz de gestos surpreendentes, o que não é novidade para quem o conheceu no tempo quando bispos em seu país.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).